sexta-feira, 16 de julho de 2010

A qualquer momento: nós, os incorrigíveis.

Hoje, se falarmos que a preocupação dos cidadãos da cidade de São Paulo da segunda metade do século XX era o trânsito e a progressiva paralisação completa que impediria o deslocamento, assim como um dos principais causadores de mortes e verdadeiras tragédias, nos parece algo absurdo. Preocupação essa que rondava o mundo, e sobretudo, as principais cidades do mundo. É possível ver no filme de um cineasta francês, Jacques Tati, lançado comercialmente no ano de 1971, filmados a moda antiga, com câmeras e atores reais¹ cena que anunciava tal preocupação: as pessoas não conseguiam andar com seus carros devido ao intenso trafego de veículos, saindo então todos e indo andando entre os automóveis. Cenas como essa, quando assistida em seu tempo, encontrava-se enquanto semblante da sátira social até meados da primeira metade do século XXI. Observe como o crítico não muito ilustre Jean-Marc Badabie defende o valor artístico da cena através da sátira social, em artigo publicado na revista "Carrihers du cinema" (1971, p.72): "A cena final, emblemática, relevante pela sátira social, revela a genialidade do cineasta no uso de planos contínuos e humor, preconizando assim, o futuro drástico - ou a presente necessidade de freios para evitar o choque e a paralisação total." (1: apesar de indiscutível progresso nas técnicas de produção e de linguagem cinematográfica, a película remonta à técnica desse passado, que hoje, já inexistente, torna-se incessível para o público geral, além de completamente desinteressantes para aqueles que não assistem acompanhados da curiosidade típicas daquele que buscam a um documento histórico. É importante ver como obras de arte, ligam-se com seu tempo, assim como, sobretudo, o valor artístico; contudo, essa é outra tese já bastante discutida, que, se possível, e não havendo colapso total da nossa sociedade, pretendo desenvolver em outro texto dedicado ao tema).

Apesar dos elogios, hoje, descontextualizada, é uma cena chata, que não gera humor por completa falta de diálogo com o público. Contudo o que não esta em questão é o valor artístico do filme, mesmo que este tenha mudado (se algum dia já teve), senão a ilustração do tempo e os hábitos que mudaram por completo desde a criação do teletransporte. Vemos no filme a ilustração do momento histórico em que se pensava a criação de alternativas para que a produção não parasse por completo. As cidades encontravam problemas de poluição (algo que não mudou desde então), longas horas de trafego intenso, e sobretudo, as pessoas se atrasavam, tendo como desculpa mais freqüente, o transito. Esta é sem dúvida uma desculpa válida naquele tempo. Hoje, com a comercialização indiscriminada dos iTransports, criação sem dúvida nada menos que revolucionária, já foi visto como alternativa definitiva para todos os problemas relacionados à locomoção e deslocamento no espaço. Contudo, como falamos aqui de comportamento humano, o que se observou ao longo dos cinqüenta e dois anos desde a sua criação, foi o progressivo aumento de atrasos e cancelamento de compromissos, multiplicando e isolamentos cada vez mais freqüentes: o número enorme de pessoas que não saem mais de casa se prolifera por todo o mundo, deixando de ser uma prerrogativa japonesa. Pessoas mais idosas, que cresceram ainda na época dos automóveis ficam abismadas ao verem as ruas vazias. Falam de seu passado como tempos gloriosos, em que o ar havia mais fuligem e barulho de pessoas nas ruas. Hoje tudo o que se escuta é o vento e o ranger das estruturas dos prédios decadentes que faltam manutenção.

É preciso antes, citar o extenso estudo realizado pela empresa da Apple, criadora dos iTransports, que após a colocação do produto do mercado e sua completa difusão, sendo adquirida pelos governos, primeiro os tigres asiáticos e países africanos, que foram usados enquanto cobaias², observou e um estudo extenso feito em mais de 2 anos de pesquisa o motivo o qual, apesar dos imediatismos, os atrasos e abstenções de compromissos foram registrados nas empresas um acréscimo, completamente diferente do esperado. A idéia lançada inicialmente pelos detratores dos iTransports, e rapidamente difundida, era a de que o transporte não era imediato, senão havia algum delay na viagem, e por isso os atrasos. Aliava-se a isso as freqüentes queixas de que não era uma viagem segura e causava enjôo em algumas pessoas. O boato se difundiu rápido, havendo uma diminuição significativa no uso e na venda em relação ao ano anterior, que gerou a necessidade de um estudo que comprovasse justamente o contrário. O enjôo causado foi logo justificado, devido ao espectro de luz que era emitido. Tal estudo propiciou a mudança para os modos UV, ou UVB ou o RED-UVB, que torna a viagem mais confortável e menos enjoada (contudo, as acusações de exposição de longo tempo ao aparelho causa câncer no olho ainda se sustentam). (2: é importante destacar que, apesar da completa segurança que estes aparelhos divulgam, e da confiança que se tem hoje no aparelho, houve uma resistência no mercado de países com índices de escolarização mais altos em suas populações, dentre as principais suspeitas: 1)câncer; 2)desaparecer; 3) o perigo de se fundir com uma mosca ou algum outro corpo que se colocasse junto; 4) aparecer em algum lugar indesejado, 5) haver órgãos em lugares errados no deslocamento; 6) viajar através de uma outra dimensão, havendo a possibilidade de liberar maus que destruíssem a Terra; 7) a viagem causar enjôos; 8) a ruína das grandes empresas de automóveis, empreiteiras e construtoras de estradas, pagando aos governos para a proibição do produto em seus países. Muitas das suspeitas confirmaram-se, mas não houve, contudo, um impedimento para a difusão do equipamento, sobretudo, após ao desenvolvimento econômico rápido que o continente africano sofreu e ao colapso das empresas ligadas aos transportes e criação de estradas.).

A acusação mais grave, referente aos atrasos, foram investigadas, onde foram levantadas inicialmente duas hipóteses, as quais estariam todas elas ligadas a problemas do aparelho: 1) apesar de o delay não ser observado no momento em que o equipamento é novo, aparelhos mais antigos produzem esse delay, devido ao desgaste rápido das cápsulas de lítio; 2) o delay acontece devido a proliferação dos aparelhos e as linhas de transmissão via vácuo congestionam-se, havendo diminuição do fluxo de informações e células humanas. A segunda, mais assustadora para os pesquisadores, preconizava a volta ao trafego intenso e transito, o que os iTransports vieram substituir e extinguir (quem não se lembra do slogan: "O Agora nuca foi tão imediato!"). Reduzirei os aspectos técnicos das pesquisas, apenas destacando seus resultados finais. Para a refutação da primeira hipótese foram recuperadas amostras de aparelhos dos primeiros lotes vendidos, onde se constatou que as cápsulas de lítio encontravam-se conservadas, mostrando-se inclusive, inúteis, e não havendo razão de sua colocação no aparelho. Medidas de produção foram anexadas à mesa de produção, sendo elas retiradas por completo, barateando os custos e a acessibilidade às classes C que ainda se encontravam à margem do equipamento. A segunda hipótese confirmou que as vias a vácuo não eram possíveis de congestionamento, uma vez que se proliferavam através de ondas e não de partículas. A leitura do aparelho receptor que havia alguma demora, contudo, em nenhum momento mostrou-se superior aos 2,03 segundos, muito abaixo aos vinte minutos observados na média dos atrasos. Sendo assim, a hipóteses relacionadas a direitos com a fabricação e problemas internos dos iTransports foram excluídas. Contudo a pergunta relacionada aos atrasos das pessoas que se intensificaram não foi respondida através deste estudo, senão apenas da seguinte maneira, tal como coloca Gunter Fassbender, diretor da pesquisa, em defesa da empresa: "Enquanto problemas físico do aparelho, não foram encontrados nenhum o qual justificasse os atrasos, apenas refutamos as acusações impróprias sobre um possível delay. A justificativa para tal fenômeno so nos pode ser entendida enquanto fenômeno social, e não físico, e portanto, não cabe a nos responder. Chefes, se se incomodam com os atrasos, cobrem eles dos funcionários à moda antiga e não acusem nós, profissionais sérios, ou o nosso produto. Ele é, portanto, seguro e imediato, tal como veiculamos em nossa propaganda."

Sendo assim, já passados 23 anos desde a pesquisa realizada, a resposta foi encontrada no comportamento humano, que visto sinais de novos tempos, encontrou uma inesperada resposta para o imediatismo proporcionado pelos iTransports. Os atrasos eram humanos, e as desculpas e acusações indevidas, mais ainda. As pessoas, tendo em vista a possibilidade real do deslocamento imediato, traduziram isso na famosa frase "a qualquer momento", cujo único obstáculo para o deslocamento, era a locomoção até o aparelho individual na sala de estar (em pesquisa realizada em sete países, confirmou-se que os iTransports eram colocados na sala de estar, lugar para receber visitas). Sendo assim, a qualquer momento tornou-se ao longo do tempo, a única possibilidade de futuro em oposição ao imediatismo. Uma análise do imaginário de nossos tempos que ganha extensão diante do absolutismo do imediato é justamente a reivindicação da possibilidade de um futuro, cujo propicie uma vivência mínima. Os atrasos se intensificam ao ponto de hoje, muitas pessoas tem seus iTransports em casa sem usá-los, e estão completamente isoladas de outras pessoas. O aumento assombroso, e o colapso das relações humanas são justamente o absolutismo do agora, que freiou completamente o fluxo. O fato de grande parte das populações dos mais diversos países estarem neste progressivo processo de isolamento e absolutismo da individualidade e do agora são marca de nosso tempo, cujos efeitos drásticos já podem ser vistos em conseqüências reais: 1) a crise econômica, uma vez que as pessoas não vão mais trabalhar; 2) a dominação e completa dependência do homem pela máquina; 3) a crise de alimentos, que em poucos anos, já levou a inanição várias populações, e extinguiu grande parte da América latina, continente com vocação para a pobreza; 4) a perda de línguas e idiomas, os quais muitos já são, em um período inferior a 50 anos, línguas mortas; 5) a morte dos idosos, que reduz hoje a expectativa de vida para 58 anos. A explicação encontrada é devido a rápida diferença e descontextualização daqueles da era dos automóveis, cuja vida parece ilógica e deslocada totalmente nos dias atuais; 6) a redução no número de nascimentos, que progressivamente vem sido reduzido. Numa análise nos dois últimos anos, no mundo todo, mostrou um número muito maior de mortes em oposição ao de nascimentos. Fazer um bebê implica em geral sair de casa, o que traz nada mais senão uma atualização do dilema, a qualquer momento.

Esses são os poucos fatos listados que estão relacionados à criação não menos que revolucionária que trago neste ensaio. Existe hoje alguns movimentos, que têm invadido a casa de pessoas e destruído os iTransports, contudo, os meios alternativos de deslocamentos já estão quase que extinguidos, não havendo combustível para os carros que sobraram, ou animais que sirvam de montaria. Resta nada menos que o velho caminhar, que surge como único recurso. Contudo,as ruas vazias, e ausência de portas nas casa mais novas, sendo entrada apenas possível através dos iTransports, impedem que renegados se encontrem nas ruas, senão apenas dos aparelhos, o que traz novamente o problema da corrosão do tempo cronológico, havendo a perda total de um tempo objetivo, diante da supremacia do individual. O que perdeu-se portanto, é a sensação de grupo. Se foi viver em grupo que nos caracterizou como animais mais desenvolvidos e possibilitou a evolução, deixar de sê-lo é portanto, o nosso fracasso: um fracasso coletivo e incorrigível.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Manual de Superstições I - o vôo almadiçoado da coruja

Condicional: Se uma coruja passa por alguém num raio de uma esfera de até 30 metros, estabelecendo assim contato visual e/ou auditivo, enquanto que, ao mesmo tempo em que tal contato é estabelecido, cantar, fortemente ou não, de modo que se escute ou não, algo de ruim acontecerá: 1)com você; e/ou 2)com algum familiar; e/ou 3) com algum conhecido. No entanto, a única maneira de impedir tais acontecimentos futuros prováveis é se aquele que estabelece contato com a coruja dizer para ela, ainda enquanto a enxerga e/ou a ouve: "Vai-te só!".

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pedaço

Muitos anos depois, quando a doença já havia destruído suas memórias mais recentes, e não reconhecia com facilidade seus parentes, chorou no quarto a noite, sentindo saudade da infância, dos seus pais, de seus irmãos e de seu filho morto. Lembrou-se dele, e misturando as memórias, situou-o na mesma época de menino, quando costumava roubar doce no fiteiro, na esquina da rua de sua casa em Bairro Novo. Nesta época, de tão baixo que era, não conseguiam vê-lo através do balcão enquanto metia a mão puxando a prmeira coisa que agarrasse. Depois, disparatava na carreira, enquanto sua única preocupação era não levar tabefe de guarda ou que sua mãe descobrisse, coisa que sempre acontecia. Vez ou outra, seu filho costumava tá ali junto, se recordava, correndo com ele, dava lição ainda: "pai, você não devia fazer isso. Você também não devia comer tanto doce", e no quarto escuro, ocm lágriams entre as rugas, respondia: "eu sei, é errado, mas é que eu gosto tanto de doce". Quando chegava em casa, mãe perguntava logo onde ele arranjou dinheiro pra comprar doce, e dizia, "foi meu menino", e Jõao sempre enconbria, "é fui eu vó". Mãe não reclamava com o neto, dizia que tinha era que mimá-lo, e iam jogar bola os dois. Não se lembrava bem se tinha sido no último natal ou no aniversário do seu menino que ele deu aquela bola para ele, mas já estava gasta, e decidiu-se que fazia tempo suficiente, e que jogavam com ela a bastante tempo. João reclamava vez ou outra, "quero uma nova pai", e ele dizia, "so no seu aniversario pq eu nao tenho dinheiro, ou você pede pra mãe, ou espera eu crescer pra eu trabalhar e poder brincar", e João ficava com raiva, e fazia manha, e diminuia de tamanho. Ficou tão pequeno que desaprendeu a andar, teve que colocar fralda, e joão não falava mais nada. Anos depois, ali na escuridão ele chorou de novo, quando viu ma parede branca do quarto, o som da tv atravessando a sala junto à voz de sua senhora. Era Lalá quem trocava as fraldas de João, e nessa época ele só sabia jogar bola, e roubar doce. Quando se metia ele e seus irmãos, a correr, ou sair coletando jornal velho pra ter dinheiro, e inteirar a feria de casa, lalá ficava com mãe. Brigavam muito entre si, e depois brigavam com ele, e diziam que ele não era um bom pai, e aí ele pegava o dinheiro da feira e comprava a bola pra João, e íam brincar. Depois na rua, sempre na rua, diziam pra ter cuidado com os moleques, e depois diziam que os moleques eram eles mesmos, os dois, joão e seu pai, soltando fogos de artifício nas caixaas de correio da rua, mijando nos muros dos vizinhos que eram inimigos de vô, sempre correndo. Quando viam juntos, brincando pai e filho, quem gostava de vô, dizia, "que felicidade ver esses dois juntos, eles são inseparáveis. é tão bonito ver pai e filho tão amigos." Mas vez ou outra também diziam diferente: "Com esses dois, as ruas ficam impossíveis! Ainda mais com um pai desse!". Ele não se importava, não sabia que era pai, mas sabia que João era o filho dele. Quando falavam mais duro, diziam que ele tinha que ter mais responsabilidade, principalmente vó, que tinha que trabalhar, e ele replicava, "mas eu sou só uma criança", e tudo então fazia sentido. João não devia tá ali, ele tinha que ir emobra. "é pai, meu lugar não é aqui", concordava João com Lalá, que dizia, "ele tem que ir embora". Chorou muito, porque ele gostava muito de João, e não queria se separar dele de novo, e gritou, "me devolvam meu filho!", que da sala, se escutou o grito. E então ele tava roubando doce de novo no fiteiro, correndo ao lado de João, mas dessa vez não entraram em casa, passaram direto. Continuaram correndo. Ele tinha que algo a dizer, mas não sabia o que era. João pedia um pedaço de doce. "Já começo a gostar desse doce. Tenho uma idéia.", diza João com a boca cheia de goiabada, "Eu posso ser seu irmão, ao invés de seu filho, e aí vó cuida de mim e lalá vai embora." E ele gostava da idéia, mas sabia que não tinha como deixar de ser pai e filho. Ele apagou o sorriso, e falou, "mas você vai deixar de ser meu filho.". E ficou com medo de que não fossem mais ser tão amigos como eram, que fosse acontecer alguma coisa, que o elo pai e filho se quebrasse. Falou então: "É melhor tu ser meu pai e eu teu filho, que faço birra e não vou embora", e João ficou pensativo. Era muita responsabilidade, e ele também era pequeno, não queria ter que mandar no proprio pai. Ficaram os dois matutando enquanto a goibada era comida por eles e pelas formigas. João então falou, "não tem como, eu vou ter que ir embora." Ele ficou triste, queria João ali. "E como você vai embora?", "Eu vou morrer", respondeu. Sentiu muito medo, e pensou, que João já tava morto, as formigas também tavam comendo ele e gritou muito forte.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Do caso Madeline à Declaração Universal dos Direitos dos Órgãos.

O primeiro caso relatado aconteceu em Manchester, Inglaterra, deu-se enquanto um caso de separação litigiosa na vara familiar, julgado pelo juiz William Kossick, ingles de decendência alemã. Tal caso foi analisado sem os apelos midiáticos pela primeira vez no I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow. Analistas não sabem se este caso foi um precursor, se os órgãos já não se revoltavam antes, mas sem dúvida abriu as portas judiciais para resultados favoráveis aos orgãos e não ao organismo. No entanto, alguns cientistas jurídicos afirmam que com o decorrer dos fatos e a maior frequencia de casos parecidos, talvez fossem melhor julgados numa nova instância a ser criada, a vara dos órgãos: aquela que julgaria os casos em que órgão processam pessoas e outros órgãos - ouvidos processam dedos, línguas processam dentes, barrigas processam seus donos - já que estes, como veremos a seguir, merecem tratamento jurídicos diferenciados.

Não é de se espantar que o primeiro caso tenha sido justamente uma barriga revoltada com sua condição de obesa, pede divórcio com o resto do corpo, processando assim Madeline Brosman. A barriga de Madeline, chamada assim nos autos do processo (até então, os órgãos não tinham o direito de ter nomes próprios), acusava Madeline, dentre outras coisas, de desleixo, preguiça crônica e exagerado apetite; caracteristicas as quais agravavam a situação, forçando-a a ficar debruçada constantemente sobre as genitália de Madeline, lugar oriundo de um terrível mal-cheiro. Ela exigia uma separação o quanto antes, assim como o pagamento de uma pensão e outros direitos conferidos a um casal divorciado. Em sua defesa, Madeline afirmou que não tinha vontade de emagrecer, e sentia muita raiva de mulheres magras, sinônimo de beleza até então. A sua barriga era a representação de si e de sua revolta à anorexia. Para ela, portanto, uma separação causaria danos irrparáveis à sua pessoa, sendo isso inaceitável. Quanto ao mal-cheiro dizia tratar-se de calúnias, e não exiatria em provar a qualquer duvidoso de que sua vulva exalava um odor bastante agradável.

Para que compreendamos o julgamento favorável à barriga de Madeline, é preciso ir além da relação de Madeline com sua barriga, ou mesmo ao apetite exagerado dela. Compreendamos duas outras histórias relevantes para o julgamento, no intuito de não termos uma interpretação leviana acerca dos fatos. A primeira, a tradição do divórcio na Inglaterra, lugar que tem sua história política marcada por reis e rainhas desquitados, algo que segundo alguns historiadores tornou a ilha do mar do Norte como o país com mais casais separados. Segundo, a história do juiz William Kossick, e a relevância que sua decedência alemã tomou ao julgar este caso. Apesar de ser inglês, desde sempre nutriu um certo apaixonamento pelo aquilo que vinha do continente, como a adesão ao pensamento racionalista, e gosto pelos contos do Barão de Munchaussen, que coloriram sua infância. Ao deparar-se com o caso de Madeline, lembrou-se do Rei da Lua, personagem dos contos do Barão, o qual tinha a cabeça separada do corpo, como uma alusão à separação entre alma e corpo cartesiana, o qual no pensamento do racionalista francês era algo completamente possível. Sendo assim, tal divórcio deveria ser tratado como a cabeça do Rei da Lua que desejava afastar-se todo o tempo de seu corpo, uma relação, assim como a de Madeline ocm sua barriga, marcada por muitos desentendimentos.

Temos ainda o advogado de Madeline, Pierce Barry, acostumado com processos de divórcio envolvendo abuso sexual, julgados na vara criminal, e não da família, passou a aconselha-la, com o decorrer do julgamneto, a aceitar o divórcio, uma vez que a barriga de Madeline poderia agravar a situação com um processo de abuso sexual. Obrigar a outra pessoa cheirar a genitália do outro, mesmo sem a intenção de, poderia ser enquadrado num crime de abuso sexual culposo.

Portanto, algo irrealizável até então, o juiz da sua sentença a favor da barriga. Suas palavras finais foram transcritas no seguitne trecho:

"Este é um processo que muitos, mesmo não estando na posição de juiz, julgaram-no absurdo por sua natureza inesperada ou incompreensível, e portanto apenas um resultado seria possível: favorável a Senhora Madeline Brosman. No entanto lhes digo que minha compreensão, distinta, autorizada por minha posição, afinal, foi a mim que caiu a decisão sobre tal julgamento, surge numa contra-corrente: julgo sentença favorável à Barriga de Madeline. Este processo irá não apenas acabar de uma vez por todas as discussões da divisão entre corpo em alma, se são inseparáveis ou não, como, assim como nos contos do Barão de Munchaussen, o qual travava uma luta não apenas contra a morte, senão também contra a lógica e a razão. Se tal processo é incompreensível, a razão nos é então nada mais que inútil para uma decisão. Tal como o Barão, não me utilizo da razão para julgar. Julguei com a minha desrazão, e posso já vizualizar as consequencias deste novo modo de pensar. Minha sentença separará os órgãos do organismo, maracará a derrocada da alma sobre o corpo, abrindo precedentes para tornar-lhes, os órgãos, seres de direito. Tal questão nos coloca numa posição até então jamais visitada: é o organismo responsável por seus órgãos? Julgo que um resultado favorável à Barriga de Madeleine só é possível se entendemos que Madeline negligenciou cuidado à sua barriga, e ainda a expos a situações de risco e degradação, havendo sistemáticas situações de assédio. À Madeline, portanto, condeno-a a uma sentença em regime fechado em prisão estadual de segurança mínima por abuso sexual culposo, por 2 anos, assim como a exigência de que durante o período de reclusão, mude seus mal-hábitos, e realize exercícios físicos. É da responsabilidade também de Madeleine o pagamento de uma pensão alimentícia de 50% de seu salário à sua Barriga, sob a ameaça de pena de reclusão, caso os pagamentos não sejam efetivados."

A mídia a princípio não acompanhou tanto o caso, mas o agravamento da situação e seu apelo sensacionalista, o qual sobretudo pelas declarações cada vez mais injuriosas que a barriga de Madeline realizava contra ela, virou um grande tema de discussão, sendo acompanhado com afinco por toda a população, ganhando apelo internacional. Tal repercussão só aumentou frente ao julgamento, quando as palavras finais do juiz foram divulgadas, havendo então cada vez mais processos do tipo: mais barrigas processando os maus-hábitos dos seus donos, que com o tempo passaram e serem chamados de organismo-portador ou termos mais radicais, organismo-privador; assim como organismos passaram a processsar suas barrigas, querendo também divórcio. Mas os problemas aumentaram quando outros órgãos passaram a processar os organismos. Casos de fígados processarem o organismo portador, acusando-os de bebedeira, e exigindo indenização multiplicaram-se pelo mundo. Logo então, órgãos passaram a processar órgãos. Os mais comuns: línguas processavam dentes; instestinos processavam pâncreas; coração processava o cérebro, e este exigia por sua vez, a volta do reconhecimento da representação da alma. A alma, por sua vez não era mais possível; o que outrora já havia sido um sujeito passou a ser muito mais compreendido como um condomínio hábitado por muitos, que nem sempre se entendiam.

A situação se agravou quando relatos doenças auto-imunes revelaram-se como atentados terroristas, ou corações que paravam a fim de justificarem sua importância frente ao funcionamento do organismo, quando não o cérebro que exigia esse reconhecimento e deixava de realizar suas funções propositalmente passaram a ocorrer. Tais casos inicialmente passaram a ser analisados nas varas criminais em alguns países; alguns configuraram homicídio doloso, com penas de reclusão no formal, ou habitar outro organismo-portador/privador de algum prisioneiro. Alguns desses países passaram a criar organismos-portadores/privadores para agruparem órgãos infratores chamados formalmente de organismos-prisionais; informalmente de Frankensteins enjaulados. Mas na maioria dos países, continuou-se a analisar casos que envolviam órgãos enquanto próprios da vara familiar.

A discussão em todos os países se deu exatamente nesse ponto, que com a multiplicação de um quadro de processos envolvendo órgãos e organismos-portadores/privadores, não havia uma vara própria para tais casos, deixando assim os órgãos numa certa "reconhecida informalidade" (Stromberg, 1987, p.325), dada a dificuldade de enquadre em qualquer uma das varas já existentes. Nesse sentido que 32 anos após o caso Madeleine, jurista do mundo todo se reuniram no I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow, onde foi proposto a criação de uma vara especial: a vara dos órgãos. Houve bastante divergências, pois algusn juristas alegavam que os órgãos não eram seres de direito, outros que não havia necessidade de uma criação de uma vara desse tipo, pois assim, estaríamos enquadrando todos os processos envolvendo órgãos aí, e lhes negaríamos o direito de julgamentos em outras varas.

A Barriga de Madeleine, agora com um nome próprio, Lorenzo Guttemberg, compareceu ao congresso, desquitada de Madeleine, divulgando seu livro, A luta pelo direito dos órgaos, e em ação política. Foi aí também, em Glasgow, que foi reconhecida a importância para a luta dos órgãos por seus direitos e o pioneirismo do caso Madeleine. Seu discurso foi entremeado por vaias e apalusos calorosos, de organismos e órgãos. Línguas gritavam elogios, enquanto outras chigavam-na veementemente, acusando-a de anarquista e de ataque a moral e os bons costumes.

O I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow, não repercutiu como o esperado pelos órgãos, havendo considerações quanto ao caráter planfetário que ganhou o congresso. No entanto, observa-se aí a primeira tentaiva de um plano internacional para a situação legal dos órgãos afim de tirá-los da informalidade legal. Após alguns anos, foi a Itália que primeiro transformou seu sistema judiciário para a criação dessa vara. Os demais países foram transformando-se aos poucos, alguns ainda não a incorporaram. Outros que o incorporaram, já criaram tal vara bastante diferente do projeto inicial proposto em Glasgow.

Outras tentativas aconteceram, mas nenhuma mais importante que a de Rotterdã. Apenas cerca de cinquenta anos após o caso Madeline que em Roterdã foi realizada a primeira Declaração Universal dos Direitos dos Òrgãos. Dentre os principais tópicos, temos:

I. Todo órgão é igual em seus direitos, sendo todos eles seres de direito;
II. Todo órgão é livre para participar ou não de um organismo-portador;
III. Todo órgão tem direito a um nome próprio que o diferencie de outro órgão, se assim o desejar;
IV. Todo órgão tem direito de exercer suas atividades livremente, de acordo ou não com o organismo-portador;
V. Todo órgão tem o direito de habitar um organismo, se assim for de acordo com a comunidade de órgãos que o habitam;

Estes cinco pontos são os mais fundamentais. Todo eles foram desenvolvidos e discutidos em uma luta política formalmente encontrada em cinquenta anos desde o caso Madeleine. A declaração ainda é muito polêmica, uma vez que há organismos-portadores/privadores não querem reconhecê-la, assim como grupos de órgãos, chamados informalmente de anarquistas, acusam-na de burocratizar os órgãos, negando sua essência de órgãos, tornando-os nada mais que outros organismos menores.

Por fim, é nesta situação que nos encontramos hoje, pendendo ora para a reconstituição do organismo portador como o único ser de direito, ora para destruição do pensar racional e o espedaçamento do organismo.

sábado, 21 de novembro de 2009

Pedro abençoado

A chuva começou de madrugada. Pedro estava dormindo, mas ouviu a chuva e sonhou que tomava banho. Acordou com sede em mais um domingo.

Levantou-se, caminhou até a janela, e escutou a voz forte que batia no telhado e escorria para o chão. Definitivamente, não foi este barulho que o acordou, senão a sede. Talvez fosse hoje o dia?, se perguntou. Foi a cozinha e bebeu um copo d´água. Já era dia, ainda que cedo, mas as nuvens insistiam em barrar a luz, e deixar uma escuridão cinza marcar o céu.

Pedro, que morava no bairro do São José, não tinha ainda programa para aquele domingo. Pensou em ir ao culto, ou assistir a chuva, como fazia religiosamente em dias nublados. Foi ao parque treze de maio, na chuva. Passeou com uma capa azul, meio transparente, que deixava atravessavar a cor da camisa branca que usava embaixo. Tinha ainda um guarda chuva safado que quebrou com o primeiro sinal de vento mais forte um pouco. A capa foi suficiente; molhava um pouco a testa, e atrapalhava um pouco a vista, embaçando os óculos, mas protegia a maior parte do corpo. Tudo o que precisava era dos seus ouvidos.
A praça vazia, em época de chuva, afastava inclusive os mendigos que ali habitavam. Se mudavam temporariamente para as marquizes das ruas vizinhas. 'VocÊ tem que ter uma saúde de ferro para ir, nessa chuva, caminhar no treze de maio', imaginava o que iriam lhe dizer. Em verdade costumava ter, ficou doente a última vez na infância, curado por uma benção. Não tinha medo de gripes, sabia que Deus tinha um plano para ele, e esperava o seu chamado.
Talvez uma chuva forte fosse o prenúncio de uma nova ordem, de uma nova manifestação de ira do Senhor. Pedro gostava quando chuvia. Lembrava-se de Noé. Pensava que agora iria ouvir o seu chamado, que conseguiria uma counicação direta com Deus, "seria agora que me enviaria um anjo, que me chamaria para atender o seu chamado? Senhor, estou pronto".

O parque vazio na chuva era um bom lugar para decifrar a voz de Deus. Sabia que o barulho da chuva que cada som que as gotas da chuva faziam quando caiam continham uma mensagem a ser decifrada. Pedro fechava os olhos e escutava uma sinfonia das águas escorrendo do céu para os telhados, plantas, pessoas, carros, e toda a sujeira que circulava na cidade. O cheiro forte que sobe é a própria angústia que Deus sente com os recifenses. Precisamos de um lugar limpo e todos os que mais precisam do banho sagrado estão protegidos. Fechava os olhos e sentia que podia ouvir num grande ruído toda a natureza, sons emitidos pelos siris mergulhados na lama, às baratas nas galerias, aos homens comentando o último jogo do Santa.

Pedro sabe o que Deus quer dele. Sabia que aquela chuva queria dizer-lhe algo. Ele podia sentir, mas não traduzir em palavras. Sempre soube, desde aquela benção que o curou de uma gripe forte e o aproximou definitivamente à direita do Pai. Sabia que estava ali para ser instrumento, e a chuva seria o canal de comunicação, traduzia toda a natureza, ligava todas as águas, ali ele tinha o mar, os rios, os canais, os esgotos evaporados e purificados no pleno contato com o Divino.

Pedro aguardava, quando vou entender? quando a mensagem me será revelada? Sabia que não devia ficar ansioso. Quando a hora chegasse, ele iria saber.

As águas continuavam a cair do céu. A chuva parecia ter engrossado. O que isto poderia significar? Não sabia. Pedro tinha vontade de chorar. "Por que este martírio Senhor, por que me forças a andar às cegas?". Sentia raiva, revolta. Seria ele espelho da vontade divina? Sua raiva era a raiva do Senhor? Estaria ele ligado por aquela água de modo purificado para sempre à Deus, sendo ele agora órgão das atividades divinas.

Olha para frente, vê as plantas. As árvores antigas que sempre estiveram naquele parque. Pedro se sentia igual a elas. Sou filho de Deus, produto da natureza, pensava solitariamente. Sentia-se parte do ambiente. Aquela espera, ainda que demorada, ainda que martirizante, fazia-o sentir-se como aquelas plantas, pertencentes ao treze de maio, e isso trazia-lhe uma alegria, uma sensação única de pertencimento. Pensava às vezes que não queria decifrar nada, queria apenas viver embaixo da chuva no treze de maio. Quando a chuva acabava, em outras vezes, sentia a obrigação de sair dali, além de se sentir incapaz. Incapaz por não poder continuar ali junto com a chuva.

Às vezes queria ser Deus, e fazer chover sem parar. Gostaria de matar todos afogados, as plantas, as pessoas, as crianças. Derramaria uma chuva ácida que derreteria o bronze das estátuas do parque, o ferro dos barcos e a casca dos siris. Às vezes Pedro tinha muita raiva dos mendigos que se protegiam da chuva e mijavam no chão. Tinha raiva dos lojistas que não acolhiam os mendigos. Tinha raiva dos carros que passavm e atropelavam os mendigos. Tinha raiva da chuva que todos odiavam.

Pedro às vezes se sentia muito confuso. Queria esperar, queria ter paciência, queria que a chuva o cobrisse até que morresse sem ar. Queria que a chuva só matasse ele, que era surdo e não entedia Deus. Queria criar raízes embaixo da terra, e comer o barro de onde veio. Pedro não aguentava mais os dias de sol, não aguentava mais o fedor do bairro de São José, não aguentava mais o banho que a chuva lhe dava. Ele não queria mais esperar. Pedro queria nunca ter sido abençoado.

Pedro não escutou voz nenhuma. A chuva engrossou e seus óculos estavam completamente embaçados.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

tout le monde sont bricoleur!

Do que eu me acuso? TOUT LE MONDE SONT BRICOLEUR!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Você sabe que é plágio. Não vim aqui lhe acusar, mas você sabe de quem foi a idéia. Eu lhe contei, e você não teve coragem de mudar uma só palavra, acrescentou algumas claro, nas lacunas, onde estava incompleto, mas sabe que eram minhas. As lacunas também eram minhas. Não vim lhe ameaçar, mas você sabe que esse é o meu jeito de sobreviver nesse universo, chamado planeta terra. É impressionante o que você fez, acho que nunca veria escrito as minhas palavras, e para a minha surpresa, esse plágio agenciou minha desnessecidade com a sua inescrupolosidade. Além de gordura, você precisa emagrecer, precisa de mais lacunas. Eu tenho todas elas, e dentre elas é o meu texto que você escreveu. Essa é a minha arte, é a minha cultura. Você sabe que não deveria ter feito isso, você sabe o quão gordo e fedido você é. Você sabe de muita coisa, e é essa consciência que servirá de ameaça. Eu não vou cobrar nada. Mas você sabe a origem de tudo, e espero a sua culpa ardente. Eu só vim apontar a ferida, mas você já enfiou o dedo, porque você sentiu a dor a muito tempo, antes de pegar minhas palavras e encher com a sua gordura. Quando teve a idéia, e começou a cuspi-las, ouvia e cuspia, uma palavra para cada gota de saliva, mas ainda, no final temos mais saliva, tínhamos uma poça, e você escorregou nela só, nem precisou de um empurrão e por isso eu não vim lhe ameaçar. Por que você não aguenta a culpa, você não aguenta a ferida aberta, e se fosse mais magro, já estava de pé. Eu não vou te dar uma mão sequer - nem para acusar e denunciar. Você sabe que é plagio. E você sabe também porque nunca escrevi. Perversão amigo, perversão. É isso que diferencia escritores de plágio: perversão. Porque diferente de você eu não tenho culpa. Não tenho barganha, e por isso você não é um escritor, você plagia. Você sabe que é plágio. Você tomou para si, e digo então: engula-as e Bom Proveito!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O desaparecista

-Doutor, nessa ultima semana tenho sentido algo estranho, sinto como se eu estivesse, não sei, desaparecendo, de maneira cada vez mais gradual. Acho que de maneira geral, isso já vem acontecendo há um tempo, mais só tenho percebido como algo mais recente, algo mais novo, digo a consciência disso, sei que você trabalha com o inconsciente, e não sei se isso é tão inconsciente, acho que hoje tem sido cada vez mais claro essa certeza. Hoje eu sei o que está acontecendo comigo, sinto como todo esse período de análise que vinha fazendo só me ajudou para que eu confirmasse isso: que estou desaparecendo. Nunca antes tudo me pareceu tão claro, não sei se tem algo haver com minha mãe demorar muito para me amamentar, as vezes eu chorava muito para que ela fosse me amamentar, não sei se tem haver, porque, segundo ela, ela dizia que eu que demorava muito para chorar, e aí ela ia dormir...
-Mas o que faz você ter certeza hoje?
-O que faz eu ter certeza hoje? Na verdade não sei se tenho tanta certeza, acho que eu comecei a sentir isso quando estava no ônibus, indo trabalhar. Isso já faz tempo, não foi essa semana, essa semana não aconteceu muita coisas, nem fui trabalhar, mas acho que só essa semana eu comecei a entender de alguma forma o que vinha acontecendo. Sabe, já fazia algum tempo que vinha percebendo algumas coisas estranhas, mas não eram totalmente estranhas, pois já algum tempo que eu comecei a ficar habituado com elas, mas não totalmente confortável com elas, digo com essas situações. Acho que me lembro, como falei antes, quando estava no ônibus certa vez indo para o trabalho, de manhã cedo, subiu uma senhora, não muito idosa para estar na parte dos idosos, mas velha o suficiente para pagar a passagem, e o ônibus não estava vazio, sabe, ainda tinham alguns lugares vazios, mas menos que a metade. Enfim, o que acontece é que ela veio se dirigindo na minha direção, eu estava sentado no corredor, como comumente faço, apesar de que tinha outra pessoa na janela, pois não queria ficar no sol, e na hora que saio, so tem lugar no sol, ou então no corredor; mas a senhora veio se aproximando, andando bastante decidida, ao menos parecia, não me pareceu suspeitar do lugar que ia sentar, ate chegar tão perto, mas tão perto, que sentou em cima de mim. Eu me levantei e falei, “minha senhora!”, e alguns que olharam, ficaram achando meio estranho sem entender, tanto quanto eu, E a senhora mais ainda, envergonhada, o que me fez parecer que tanto quanto eu, estava surpresa, pediu desculpas, e disse “Desculpe meu filho, eu não te vi aí”. Eu em pé já, falei, tudo bem, e então ela sentou no lugar que eu estava, e os curiosos voltaram a olhar pros outros lugares que estavam antes dessa confusão, que não foi bem uma confusão. Em segundos eu já não tinha mais platéia, nem lugar, já que a tal velha sentou no meu. Mas não foi só isso, se fosse só isso eu acho que estaria bem. Tem também os encontrões na rua. As pessoas simplesmente esbarram muito em mim, e depois escuto o que a velha me disse: Desculpe, eu não te vi aí. Sempre escutava, desculpa, quando não era eu que me desculpava. Mais no começo eu ouvia desculpa, depois eu passei a dar mais desculpas, e hoje em dia nem escuto mais nada, só uma cara assustada, quando não zangada, quando nem nada. Acho que a última é a mais atual, total indiferença. Mas por muito tempo achei que fosse pressa dessa cidade que ta ficando cada vez mais caótica, hoje em dia você não consegue chegar no Derby de ônibus às 7:30 sem perder pelo menos uns 40 minutos na Agamenon. E por isso todo mundo corria, mas se fossem só esses dois eventos separados, sabe? Digo, os vários esbarrões, acho que isso acontece com todo mundo, levamos muito esbarrões, e nem temos tempo pra falar, pra ouvir ou dizer desculpa. Eu ficava imaginando se um dia eu iria esbarrar na minha mulher por exemplo, e se ela passaria direto. O engraçado: que triste a minha fantasia, nem muito precisei esperar pra que meu desejo acontecesse, e não ouvisse nada, nem desculpa. Sabe né que eu a conheci num esbarrão. Parece até um clichê, mas é verdade. Já te contei isso.
-Hum...
-Pois é, talvez por isso minha fantasia de esbarrar de novo com ela na rua. Não sei reviver os tempos da juventude, seria bom talvez. Mas só tive a indiferença habitual, assim como todos. Acho que isso também, digo, os eventos mais familiares também me ajudaram a entender o que está acontecendo comigo. Minha mulher, no começo, quando eu chegava em casa, ela se levantava, vinha até a porta, me beijava, e quando geralmente, terminávamos transando. Claro que hoje não precisaríamos transar toda vez que eu chegasse em casas, acho que que isso já faz tempo, e isso já desapareceu da minha vida, digo o sexo. Mas aos poucos foi diminuindo, tudo, não transávamos todo dia quando chegava, apenas se levantar e o beijo mais demorado, pra então beijos mais rápido, pra então beijos na bochecha, pra então um abraço, pra então, um não se levantar e me chamar pra chegar perto e eu beijar a sua testa, pra então nem olhar, e só olhar quando eu chamar o nome dela, pra então nem olhar depois deu chamá-la: “Neusa, cheguei.”, e só depois de eu ligar a luz. Não sei se deveria ir a um médico ou a um psicanalista, talvez um médico fosse mais indicado. Não vou mentir pra você doutor. Eu fui num médico. Quando comecei a dizer que estava desaparecendo, ele mandou eu vir ao meu psicanalista (eu tinha dito a ele que fazia análise já) e me deu esse remédio. Mas não tomei. Doutor, acredite em mim, estou desaparecendo. Ele não deixou eu fazer nenhum exame! E se for alguma doença auto-imune, alguma infecção vinda do espaço? Sei lá, isso hoje parece tão comum, tudo vem do espaço, quando não é da China, ondas de rádio, ondas de celular, ondas ondas. Uma síndrome desconhecida, já que todos os pacientes desapareceram antes de registrarem? Eu posso estar morrendo e ele me dá um anti psicótico! Que merda! Eu fico angustiado, acho que não estou sendo levado a sério, eu tenho evidências! Uma série delas, acho que nessa semana eu pude pensar nelas. Me lembro bem de uma, na fila do fast food, no Shopping, a garota: “Próximo!”, e eu vou, e a menina grita de novo: “Próximo!”, e então eu tenho que chamar a atenção dela, Minha filha, eu to aqui!, eu não disse assim, disse algo do tipo, “aqui...”, ela olhou, pois não senhor, e eu fiz meu pedido, Nº6, e ela, pois não Senhor, pronto para pedir?, Eu sim, nº6, e ela fica parada me encarando, e fala, pois não senhor pronto para pedir?, e eu falo, Sim! Já lhe disse!, Desculpe senhor, eu não entendi o pedido, O Nº6!. Ela então registrou o nº 3. Comi, já tinha pago. Mas não é só isso, me lembro na escola, há muito tempo, as vezes o professor perguntava alguma duvida, e eu levantava o braço, mas ele nunca via, ate eu desistir de levantar o braço, e ficar com minha duvida. Ate hoje eu não entendi o porque que a família real portuguesa voltou para Portugal, ou então produtos notáveis, ou quem foi Felipe Camarão. Acho que já é muito antigo, desde a infância os sintomas vem aparecendo, olhe aí. Por isso pensei numa síndrome. Isso também tem acontecido no meu trabalho, imagine que em reunião eu não consigo mais dar opiniões, por que ninguém escuta, como na fila do fasfood, as pessoas não me escutam, ou não me vêem levantando a mão para pedir a vez para falar. Eu passei com o tempo a mandar opiniões por e-mail. Eu nunca faltei uma reunião, ou mesmo um dia de trabalho, e por vezes já recebi descontos no salário, tido como débitos por ter faltado alguns dias. Isso até me lembra uma piada, mas eu não vou contar, eu não sou bom em contar piadas. Na verdade nem é tão boa, acho que me lembrar uma piada só por eu querer que fosse uma piada isso tudo, mas não, isso tem acontecido mesmo, e por muito tempo eu tenho achado natural sabe? Assim como eu tive que me acostumar com o sono pesado da minha mãe, ou tive que ficar no ônibus em pé, ou esbarrar calado em todas as pessoas nas ruas ou ficar calado a maior parte do tempo em todos os outros lugares. Eu não acho isso necessariamente bom, acho que faz algumas semanas que isso veio realmente me preocupar, digo começar, porque saber o que esta acontecendo comigo foi apenas essa semana, mas me preocupar e achar que algo estava acontecendo, já faz algumas, talvez meses. Vou dizer quando: foi quando minha mulher, na época que ela ainda abraçava, antes de não se levantar, um dia me abraçou, quando cheguei e com o nariz no meu cangote, falou: Estranho. Eu: hum? , ela, estranho, funcfunc, não consigo, funcfunc, e fungava mais partes do corpo, meu cabelo, meu suvaco, e eu, que foi amor?, não consigo... achar... Você... você ta sem cheiro! E eu? Hum?, e tentei me cheirar, tentei mesmo, fui no espelho, no banheiro, tomei um banho, gastei quase um sabão inteiro, e depois que sair do banheiro, não conseguia cheirar a nada, estava realmente sem cheiro, não cheirava a nada, eu não exalava nenhum fedor, nem nenhum cheiro bom, eu cheirava simplesmente a nada. Mas isso perdurou, colocava perfume e nada. Seguiu por vários dias, o cheiro do perfume ficava só no cômodo em que eu colocava, e não em mim. Eu passei a colocar perfume nos cômodos que eu chegava, mas eu não recebo tanto, e passei a usar perfumes baratos, acho que fiz isso aqui também, eu confesso, fiz sim na semana passada, na recepção e aqui, mas o senhor não viu, acho que estava no telefone na hora, assim que eu cheguei. A minha crise, digo, minha grande crise, começou na semana passada, quando eu já sem dinheiro, afinal, final do mês e com descontos no salário, teve pouco salário pra muito mês, e ainda uma semana antes de receber, meu perfume acabou, e eu não tinha como comprar um. Sem esse perfume, eu consegui descobri o que vinha acontecendo comigo. Percebi que as pessoas no trabalho não falavam comigo, elas me ignoravam completamente, menos quando por e-mail ou apenas interagiam comigo quando eu sem querer derrubava alguma coisa, um grampeador ou um celular, e eles pegavam e tínhamos conversas curtas, dessas que a gente nem escuta o que o outro fala, tipo, deixa que eu pego, ta bom, brigado, desculpa, e quando chegava em casa, minha esposa sentada vendo TV sem nem perceber que eu cheguei. Só percebia quando eu acendia a luz da sala, e ela falava, “amor é você?” Na sexta passada que eu cheguei, eu não liguei a luz. Fui para a cozinha diretamente, comi só, e fui dormi. Ela nem estranhou, nem falou, e acho que eu passei a entender, que o que acontecia era que na verdade eu estava desaparecendo. Acho que foi nessa noite, eu não consegui dormi quase, que eu consegui listar essa série de acontecimentos. E não estou desaparecendo só fisicamente, mas as pessoas também começam a esquecer a minha existência. Certo dia liguei para minha mãe, ela ta bem senil, mas ao falar mãe, sou eu, ela, quem? Minha esposa só lembra de mim porque eu interagi com ela através do interruptor. Ou os colegas de trabalho quando nos correspondemos por e-mail apenas. As pessoas não pedem mas desculpa por que eu sou incapaz de interagir com elas diretamente, e de tão irrelevante que tem se tornado meu peso, não existe nenhum choque para elas ou nem memória de qualquer esbarrão. Eu não quis isso, mas eu não tinha no que me agarrar, ou como, acho que ainda não quero, eu não quero tomar um anti-psicótico, eu fiquei com muito medo, sei que não estou doido Doutor, virei os espelhos lá de casa ao contrario, tava com medo de um dia me olhar e não me ver, mas depois desvirei, talvez eu esteja começando a aceitar não sei, essa semana não fui para o trabalho, nenhum dia, acho que não dá mais para ir, é como as coisas para mim também estivessem começando a desaparecer. Outro dia tropecei numa pedra que não tinha visto, foi essa semana, e depois eu me esqueci que tinha topado nela, e foi só isso, agora eu lembrei, mas não fiquei me lembrando que tinha uma pedra no meu caminho, eu não me lembro de muita coisa. Nessa mesma hora tentei me lembrar de tudo que eu não lembrava, de tudo que eu tinha esquecido, mas não dá, eu trouxe algumas coisas, acho que hoje eu falei mesmo da minha mãe, acho que me lembro do que ela se lembra, mas eu queria lembrar do que eu vi como era, mas não consegui. Eu acho que comecei a entender. Eu tinha medo de que não me vissem, e ainda tenho medo. Acho que minha percepção tem diferenciado enquanto a isso, acho que isso tudo só tem uma maneira favorável para mim de acabar ...

Ele escuta um barulho no chão e vê uma caneta rolando até ir para embaixo do divã. Senta-se, e olha para trás, percebendo então que seu psicanalsita estava dormindo, já em sono profundo. Levanta-se, pega um cobertor, cobre-o carinhosamente, e fala, Adeus Doutor. Sai, apagando a luz antes. Diz um adeus para a secretária na recepção a qual parecia muito ocupada para responder, dando a impressão de nem ter escutado. Sai pela porta da frente e desse a ladeira em direção a sua casa. Olha para a própria mão e vê que ela começa a desaparecer. Pensa com felicidade: “Finalmente”, e desaparece para si mesmo antes de chegar na esquina.

terça-feira, 31 de março de 2009

:::::SINTOMATRON:::::estrutura:::::PROGRAMA:::::

input:
Condicional: Se (A)
output:
logo (B)

*input(1):
comando - identificação primária ( na/pela Função materna)
(A): forclusão (1),
outpu: psicoe (B), S1*; *=n

GRÁFICO - COMANDO AUTOMATISCH (nicht ONTHOS)

m(i+s)<----->f(R)<--/--->

f= -$ ; s1*; *=n

*input (2):
comando - olhar desviado
(A): denegação (2)
output: perversão (B) - lugar shakesperiano do falo

GRAFICO COMANDO AUTOMATISCH (nicht ONTHOS)

m<---/--->f(i+R)<<----- LdP (S)

*input (3):
comando - Lei do Pai
(A): castração (3)
output: neurose (B) - $

sábado, 28 de março de 2009

Vamos Fale! Está certo, vou confesar, mas sem essa formalidade toda, pra que? Vamos, fale! Logo direi, estou falando afinal, não sei o que você quer ouvir, afinal importa o que eu quero dizer, ou tenho a dizer e não quero falar...Vamos Fale! Falo, falo aogra sim, pra você, ou pra mim mesmo, tudo o que tenho a dizer, a ouvir também, já que estou falando e escuto, já que falo pelos ouvidos e escuto pela boca, e a visão é trocada, vendo o cabelo, a vista torta debaixo da lingua, não conhecia minhas glandulas,vamos fale!, estou elaborando, tentando fazer que tudo faça sentido, o mínimo possível ao menos, para você, pra mim já faz, digo para mim não, mas para alguém, talvez seja por isso que eu tenha que falar, uma voz que fica, vamos fale!, é, eu vou dizer, já estou falando, uma obra total, tudo é total, digo, tenho um bolso grande, e o que não cabe, carrego no meu estomago, lacrado pelo piloro, devo ter tomado uma rolha certa vez ao inves do vinho, tudo que como fica, e por isso engordo, o gordo falador, sou eu, vamos fale!, falo da voz que escuto pela boca, antes mesmo que meus ouvidos gritem, eles apitam, e falo ao contrario numa lingua estrangeira, conhecida por mim e meus intestinos, inuteis, o pirolo nao faz nada, foi assim que matei a outra voz, a voz solitaria que vivia no meu duodeno, fazia uurrr, e eu avisava, foda-se, já não preciso mais comer, só falar! e a lingua pulava de raiva, gritando, tenho muita fome! tenho muita fome!, enquanto isso, meus ouvidos cada um ria separadamente, e na vredade, so falava sobre babel, a torre que devia cair depois de dois dias, mas se tem algo pra dizer é isso, e não vou mais me aguentar, os meus ouvidos estão começando a ficar autoritários, falam muitas ordens, falam ordens de mais, e sou que ordeno, sou eu os ouvidos, e sou so os ouvidos, e eles querem ir embora, e entao tive de sacrificar meu duodeno, porque não entendem a hierarquia do meu império? Vamos, fale! Não vem que um prisioneiro desses, traiçoeiro que nem ele, precisa ser eliminado, não é o discurso das siringas estrangeiras, tentando trazer democracia ao meu estado, que hão suprimir o poder das minhas orelhas! Eu sou elas! entendem?! Eu sou elas, e tudo que faço é por elas! Eu ouvi muita coisa já, todo o corpo obedeceu outro corpo, agora sou um outro organismo, um imperio que está se aranjando, as orelhas cansaram de ficar mudas, e agora são elas a minha voz, e não vou ficar calado, ouviram?! Não vou ficar calado! Todos os sacrifícios feitos até agora, não haverá perdão para nada, e nenhuma voz será poupada! Nenhuma!!!