Você demorou
Não acho que isso seja um fato.
O que?
A demora, não acho que seja um fato.
Estou aqui há mais de um hora.
Mas você se adiantou. Não pode contar desde a hora que chega.
Eu conto desde a hora que cheguei, porque já estava aqui e não me restava muito mais o que fazer a não ser contar as horas.
Não acho que isso seja um fato.
De novo com isso.
Em cinco segundos consigo pensar em pelo menos três coisas diferentes que você poderia fazer.
De fato. Contar carneirinhos, contar bezerrinhos, contar um conto.
Isso porque estamos falando apenas coisas possíveis de contar. Eu mesmo costumo enrolar meus cabelos enquanto espero.
Prefiro contar as coisas, por exemplo, as horas.
Uma vez enrosquei meu dedo, e fiquei bastante entretido, até ter que cortar o cabelo.
Boa idéia, quem sabe na próxima vez eu fique me cortando.
Não acho que isso seja uma boa ideia.
Boas ideias surgem assim, talvez eu me corte e assim você não demore tanto.
Não acho que isso vá acontecer. Chego quando tiver que chegar.
Você vai chegar e eu estarei aqui no meio de uma poça de sangue...
Nesse dia eu não virei. Não quero ver sangue. Afinal, porque você está pensando em se matar?
Não quero me matar. Não quero que você demore.
Não acho que eu tenha demorado.
É uma questão de perspectiva.
Perspectiva é outra coisa. Isso para mim é um fato ... e esta é minha perspectiva.
Acho que você está desconversando do fato de ter demorado.
Acho que você está desconversando do fato de ter chegado cedo. Por que tanta ansiedade?
Você chega, demora, me contradiz e fala que a culpa é minha ansiedade!
A ansiedade é o mal do século. ansiedade e depressão. Não estou falando de você, estou falando sobre a ansiedade.
Da minha ansiedade.
Ansiedade não é sua. Ela quem te tem, não você a ela. Por isso você estava contando a horas.
Eu conto as horas quando não tenho mais o que fazer a não ser esperar.
Pois já lhe disse, essa é talvez a forma mais objetiva de certificar-se que o tempo está passando.
Sem dúvida (com desdém)
De fato. É como uma música.Você poderia cantar uma música de três minutos 20 vezes e passaria uma hora. É outra forma de contar o tempo, talvez mais bonita.
Certo,voupenssar isso para a próxima vez que vocÊ se atrasar.
Pense sobre isso na próxima vez que chegar cedo.
Talvez um dia quando você chegar, eu não esteja aqui te esperando.
Talvez um dia, quando você não estiver me esperando, seja por que chegamos na mesma hora.
Seria ótimo né, mas acho improvável.
Podemos sair juntos na próxima vez. Marcamos em outro local, nos encontramos lá e viemos juntos para cá.
Acho que eu ficaria lhe esperando contando as horas nesse outro local antes de vir.
Talvez um local mais amigável, um local que você possa se distrair com outras coisas além de contar as horas.
No parque por exemplo.
Se você gosta. Para mim não gosto tanto.
Qual o seu problema com o parque?
É bobagem.
Você não vai dizer?
É muito barulhento e certa vez fui assaltado lá, não é a mesma coisa que antes, fico meio tenso ali, também tem muitos pombos.
Já me assaltaram ali também, sei como é. E aqueles pombos...
Talvez possamos nos encontrar na entrada do meu prédio.
Seria cômodo para você né?
Sem dúvida, para mim seria perfeito.
Por que não na entrada do meu prédio?
Fica meio fora de rota para mim.
Mas se eu quem irei esperar, eu que deveria escolher.
Ora, se a espera é sua, é porque você chega maiscedo. Talvez você não devesse ter chegado mais cedo.
Talvez você não devesse ter se atrasado tanto.
Ainda estamos nisso. Ao menos decidiu já o que comer?
Já comi.
Interessante, então você achou outras coisas para fazer além de contar as horas.
Comi antes de vir.
Talvez fosse melhor deixar para comer aqui.
Não gosto da comida daqui, tampouco queria gastar.
Mas o meu dinheiro você pode gastar né?
Como você gasta o seu dinheiro é um problema seu.
Como você pretende gastar meu dinheiro?
Jogo, uisque mulheres e o resto desperdiçar.
Eu vi esse filme. (rindo) Não acaba muito bem (sério)
(pausa)
Isso foi uma ameaça?
Foi um fato.
De que você está me ameaçando?
Do final não ser muito bom. Ou melhor, não ser feliz.
Que final?
Do filme.
Você desde que chegou está desconversando. Acho que não estamos nos entendendo muito bem.
O que você não está entendendo?
Nos entendendo de um modo geral.
Teve algo que eu falei que você não entendeu?
Nos entendendo! Chego uma hora e você outra, vocÊ me agride e depois nega.
Não estou lhe agredindo (agressivo).
Isto é um fato!
Não estou lhe agredindo (agressivo).
Depois de horas dedicadas a contar as horas, levou apenas minutos para você me agredir.
Porque estamos discutindo? Você começa com essas histórias, quando tudo o que eu queria era comer.
Pois coma, eu não vou comer. Não tenho estômago para isso.
Não fique com insinuações.
Insinuações feito as suas ameaças implícitas: "não acaba muito bem"?
Eu estava falando do filme. Todos morrem no final.
É isso que você deseja? Me ver numa poça de sangue lhe esperando? É esse o final que você espera?
Eu não quero ver um final desses. Não quero que termine assim.
Pois eu espero que termine melhor que começou, porque não começou bem.
Como você espera que termine então?
Diferente.
Diferente já está.
Diferente de agora. Com sexo.
Sexo é uma forma interessante de terminar. Com uma gozada na cara feito os filmes pornográficos.
Sexo não é pornografia.
Isso é um fato.
Parece que você não sabe muito de sexo.
Só sei o que vi nos filmes pornô.
Sei que isso não é verdade.
Tive também duas aulas no primário sobre sexualidade humana. Era quarta série.
Aposto que isso trouxe muita imaginação.
Muitas. Nessa época ainda pensava que o homem fazia xixi na mulher.
Tem alguns que fazem.
Isso também é um fato.
Não sei o que leva uma pessoa a isso.
Tenho sérias dúvidas se é incontinência urinária ou drogas.
Você está pensando errado. Pode ser que a chuva dourada que leve a pessoa às drogas?
Acho que tenha outros motivos para as pessoas usarem drogas.
Tenho me convencido que o problema é o leite materno. A maioria das pessoas que usam drogas mamaram durante a primeira infância.
Interessante. Me parece uma tese interessante a ser defendida.
Tenho outras teorias também.
Sobre sexo, drogas ou o tempo?
Sexo, drogas e outras coisas.
Por exemplo?
Você já observou que o último ônibus que chega é sempre o seu?
Isso não me parece uma teoria, senão um problema lógico. Se é o seu, você sobe não espera mais, vai embora.
Aha. Verdade. (pausa) Não vou falar mais das minhas outras teorias.
Ainda bem.
Você que estava me perguntando sobre elas.
E me arrependi no mesmo instante.
Está vendo como é você quem me agride.
Você não percebe a violência em cada uma de suas palavras.
Ninguém se percebe violento. Isso é uma outra teoria.
Não concordo.
Como não. Se alguém se percebe violento, deixa de ser.
Não é. E as pessoas que sentem prazer sendo violento ou violentado?
Sem dúvida, mas não quer dizer que ela se perceba violenta. É como se fosse algo inconsciente.
Em alguns contextos, me parece bem consciente.
O prazer sim, mas o perceber-se violento, não sei.
Não acho que você saiba do que está falando. Me parece pura babaquice.
Isso é um fato. Sem dúvida não sei, mas não concordo.
Não concorda com o que?
Com o que você falou.
Qual parte?
De que eu me atrasei.
Conteúdo e valor calórico: a) coisas relacionadas com coisas que não se relacionam e por ventura existe e misturamos; b) desejos de pincéis de pelo de camelo; c) programações para robôs edipianizados; d) trabalho árduo e dedicação à preguiça; e) devaneios poéticos piegas; f) palavras soltas, mal arranjadas, ou não: porcausa de agressão em corpo em cima de trabalho para me transformar em cobra, me desenruga toda minha pele, sendo que eu não mereço isso.
quarta-feira, 28 de março de 2018
terça-feira, 12 de setembro de 2017
três dias depois do milagre.
Quarta-feira, 13 de setembro de 2016. Três dias depois do milagre. Roberto, pai de família comprometido com o trabalho e dedicado aos filhos e esposa, acordou sentindo-se deprimido. Três dias antes, enquanto estava comendo o jantar seus olhos brilharam, levitou e curou a irmã que estava com câncer, para o espanto de todos, inclusive dele mesmo. Tanta energia e prazer sentidas naquela hora, que a sensação de bem-estar durou os exatos três dias. No terceiro dia, acordou como se estivesse despertando de uma ressaca e sentindo os efeitos da abstinência. Pensava, com tristeza, o quanto de dedicação e amor aos filhos e esposa teria que dedicar para poder sentir aquele conforto em sua alma novamente, passando a amá-los menos a partir de então, ao surgir espontaneamente o maléfico pensamento que se tivesse apenas um filho, seria mais fácil.
terça-feira, 29 de março de 2016
Me pergunto das historias nunca ouvidas. Me pergunto qual o cheiro do carro de boi. Me pergunto como era Palmares em 1929. Como foi a juventude nos Milagres? Como foi sair de casa para servir ao exército? Se sentiu medo, se sentiu só. Se pensava em ir pra guerra. Vô, porque não gosta de comunista? Não sei essa parte. Se gostava mais de geografia ou história? Se tinha uma paixão (não tão) secreta pelas artes plásticas. A cor favorita, azul ou amarelo? Talvez verde. Talvez o carro de boi fedesse, talvez tenha se sentido só, talvez tenha sentido medo, talvez fossem coisas para guardar, para se esquecer, para dormir por uma eternidade. Coisas sem importância, que não teve peso para ser amado. Talvez tenha querido dizer algo que eu não entendi. Só compreendi um boa noite, dorme bem. Aí eu já sabia que não era até amanhã.
sábado, 19 de setembro de 2015
Fui ontem a uma peça ruim. Ingresso caro, programa com amigos e a namorada. O programa foi bom, mas o teatro foi ruim. Nem sempre quando pagamos para ver coisas ruins é um programa que não presta. Costumo olhar as coisas de um modo mais amplo. Ver a peça ruim, com atores ruins, direção equivocada e texto brega, me fez me sentir um artista. Nunca mexi com essas coisas de arte, mas sei que quando se vê algo ruim, o artista frustrado em mim se senta melhor na cadeira, ao dizer, até eu faria melhor. O que é o mesmo que dizer, sou melhor que você, ainda que reconheça que não sou o melhor dos melhores, mas estou na sua frente, para todos os efeitos. Ah, como é boa essa sensação de se sentir realizado naquilo que você nunca quis para você.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
As meninas porcas
Mamãe morreu quando as meninas eram pequenas, mas a mais velha se lembrava bem do laço azul que ela lhe deu. Laço azul celeste para prender o cabelo. No dia do enterro a mais nova não chorou, e a mais velha segurou as tranças para entender o que tinha acontecido. Sempre disseram que papai não ia conseguir cuidar da fazenda só, e criar duas meninas sem nenhuma mulher por perto. Papai criava bicho, porco, galinha, mais porco que galinha. As galinhas ficavam no galinheiro, e os porco no chiqueiro, que era fechado, pra eles não fugirem. As irmãs gostavam de brincar lá, iam, mesmo antes de mamãe morrer, dá comida pros porcos e se sujavam. Faziam pra galinha: ionc-ionc; e pros porcos: cocoricó, pra confundir os bichos. Corriam pra ver quem chegava primeiro, e paravam perto da pedra grande, pra não molestar o pé. Antes de entrar em casa, mamãe jogava um balde de água pra tirar a lama dos pé.
Depois que mamãe morreu, a casa ficou suja, cheia de lama. As criança não comiam bem, e a mais velha tentou cozinhar. O pai tava muito triste, e não brincava mais com as menina, a mais nova subia na sua barriga e ele nem mais ria, só a colocava no chão. Não tinha como cuidar delas, não sabia dar banho, dar de comer, não sabia que horas menina dorme, nem que horas acorda. As menina não podiam trabalhar no roçado, nem fazer nada com os bicho, e papai de vez em quando brigava.
Um dia veio uma mulher com papai. Ela tinha uns lábios vermelhos, falava alto e um sorriso muito grande pro rosto. Papai disse que o nome era Jane, e que ela agora era a mulher dele, e ia cuidar das meninas. Papai podia ir pro roçado, cuidar dos bichos, cuidar dos plantio, que Jane sabia dar de comer, dar banho nas meninas, que horas menina dormia e que horas acorda, porque era mulher também.
Jane tinha um sorriso que virava do avesso quando papai ia embora. As meninas brincavam com os porco, com as galinha, e quando entravam em casa, ela dava era muito nas duas porque sujou a casa de lama. Depois diziam que tavam de castigo e as duas fugiam. A mais velha ficava segurando a fita azul que mamãe lhe deu, enquanto dormia embaixo do cajueiro, escondida de Jane. Quando voltavam, Jane dava era mais, e reclamava com papai. Papai não defendia as meninas, pensava que Jane tava era certa, e que assim que se educava menina. Papai não sabia. As meninas pensavam que papai não se importavam. A mais nova chorava muito e depois de um mês parou fugir quando apanhava. A mais velha ainda fugia, mas apanhava mais.
Um dia Jane bateu com uma galha, e puxou a mais velha pelo cabelo, só porque lhe fez raiva. Tirou a fita azul celeste dela e disse que se ela fugisse, ia cortar a fita toda. A mais velha chorou muito a noite, e se meteu no quarto de papai que dormia com JAne, pra pegar a fita de volta. Quando Jane, que fazia intimidade com papai, viu a menina entrar no quarto, deu um berro, e pulou com toda raiva pra cima da menina. Foi até o quarto com a galha, e meteu nela que acordou a mais nova, e começou a chorar. Jane dizia pra se calar as duas, e que ia dar nela também, mas a mais nova aí que chorava mais. Ela pegou as duas, levou ate o chiqueiro, e disse pra ficar. Depois fechou com cadeado numa corrente bem grossa.
Papai não achou isso certo e mandou Jane tirar as meninas. As meninas ficaram em casa nessa noite.
Tempo depois, papai foi se embora cortar cana em São Paulo e deixou as meninas com Jane. Deu um beijo em cada uma e foi embora. Jane não havia esquecido, e mostrou o laço azul celeste para a mais velha com um sorriso malvado, e cortou todinho na frente dela. Disse que era por conta da malcriação dela. A mais velha correu pra bater em Jane, mas jane era mais forte. Jane pegou as duas, e prendeu de novo no chiqueiro com a corrente de cadeado. As meninas ficaram na lama bem muito tempo quando viram que o sol já tinha ido e tava nascendo. Jane chegou junto e disse que ia tratar elas que nem bicho agora, que fica preso porque não obedece. Jogou a lavagem, e foi se embora. As irmãs só choravam muito. A mais nova deitou a cabeça na barriga duma porca e tentou dormir. A mais velha pegou da lavagem pra comer porque tava com fome.
Se passou bem tempo, e as meninas começaram a se esquecer de falar. Pra pegar a comida, gritavam fazendo como os outros porcos: uirrrrr. Metiam lama na cara, e comiam da lavagem. Não tinham muito o que fazer e começaram a andar de quatro que nem as porcas. A mais velha se esqueceu do laço azul e do nome de Jane. A mais nova, se esqueceu de caminhar primeiro que a mais velha. Logo, os dedos começaram a virar patas, e os dentes ficaram mais fortes pra poder roer tudo. Na hora de comer brigavam muito, e a mais velha engordou muito, porque tinha mais força. A mais nova gostava ainda de mamar da porca que teve filhote e roubava a mama do melhor leite. O nariz foi ficando pontudo, e logo as duas já tinham focinho e eram uma porca inteira.
Jane disse para papai que as duas fugiram quando ele chegou. Mandou Jane embora porque ela não soube cuidar das filhas dele. Papai só viu que tinha mais duas porcas no chiqueiro.
Depois que mamãe morreu, a casa ficou suja, cheia de lama. As criança não comiam bem, e a mais velha tentou cozinhar. O pai tava muito triste, e não brincava mais com as menina, a mais nova subia na sua barriga e ele nem mais ria, só a colocava no chão. Não tinha como cuidar delas, não sabia dar banho, dar de comer, não sabia que horas menina dorme, nem que horas acorda. As menina não podiam trabalhar no roçado, nem fazer nada com os bicho, e papai de vez em quando brigava.
Um dia veio uma mulher com papai. Ela tinha uns lábios vermelhos, falava alto e um sorriso muito grande pro rosto. Papai disse que o nome era Jane, e que ela agora era a mulher dele, e ia cuidar das meninas. Papai podia ir pro roçado, cuidar dos bichos, cuidar dos plantio, que Jane sabia dar de comer, dar banho nas meninas, que horas menina dormia e que horas acorda, porque era mulher também.
Jane tinha um sorriso que virava do avesso quando papai ia embora. As meninas brincavam com os porco, com as galinha, e quando entravam em casa, ela dava era muito nas duas porque sujou a casa de lama. Depois diziam que tavam de castigo e as duas fugiam. A mais velha ficava segurando a fita azul que mamãe lhe deu, enquanto dormia embaixo do cajueiro, escondida de Jane. Quando voltavam, Jane dava era mais, e reclamava com papai. Papai não defendia as meninas, pensava que Jane tava era certa, e que assim que se educava menina. Papai não sabia. As meninas pensavam que papai não se importavam. A mais nova chorava muito e depois de um mês parou fugir quando apanhava. A mais velha ainda fugia, mas apanhava mais.
Um dia Jane bateu com uma galha, e puxou a mais velha pelo cabelo, só porque lhe fez raiva. Tirou a fita azul celeste dela e disse que se ela fugisse, ia cortar a fita toda. A mais velha chorou muito a noite, e se meteu no quarto de papai que dormia com JAne, pra pegar a fita de volta. Quando Jane, que fazia intimidade com papai, viu a menina entrar no quarto, deu um berro, e pulou com toda raiva pra cima da menina. Foi até o quarto com a galha, e meteu nela que acordou a mais nova, e começou a chorar. Jane dizia pra se calar as duas, e que ia dar nela também, mas a mais nova aí que chorava mais. Ela pegou as duas, levou ate o chiqueiro, e disse pra ficar. Depois fechou com cadeado numa corrente bem grossa.
Papai não achou isso certo e mandou Jane tirar as meninas. As meninas ficaram em casa nessa noite.
Tempo depois, papai foi se embora cortar cana em São Paulo e deixou as meninas com Jane. Deu um beijo em cada uma e foi embora. Jane não havia esquecido, e mostrou o laço azul celeste para a mais velha com um sorriso malvado, e cortou todinho na frente dela. Disse que era por conta da malcriação dela. A mais velha correu pra bater em Jane, mas jane era mais forte. Jane pegou as duas, e prendeu de novo no chiqueiro com a corrente de cadeado. As meninas ficaram na lama bem muito tempo quando viram que o sol já tinha ido e tava nascendo. Jane chegou junto e disse que ia tratar elas que nem bicho agora, que fica preso porque não obedece. Jogou a lavagem, e foi se embora. As irmãs só choravam muito. A mais nova deitou a cabeça na barriga duma porca e tentou dormir. A mais velha pegou da lavagem pra comer porque tava com fome.
Se passou bem tempo, e as meninas começaram a se esquecer de falar. Pra pegar a comida, gritavam fazendo como os outros porcos: uirrrrr. Metiam lama na cara, e comiam da lavagem. Não tinham muito o que fazer e começaram a andar de quatro que nem as porcas. A mais velha se esqueceu do laço azul e do nome de Jane. A mais nova, se esqueceu de caminhar primeiro que a mais velha. Logo, os dedos começaram a virar patas, e os dentes ficaram mais fortes pra poder roer tudo. Na hora de comer brigavam muito, e a mais velha engordou muito, porque tinha mais força. A mais nova gostava ainda de mamar da porca que teve filhote e roubava a mama do melhor leite. O nariz foi ficando pontudo, e logo as duas já tinham focinho e eram uma porca inteira.
Jane disse para papai que as duas fugiram quando ele chegou. Mandou Jane embora porque ela não soube cuidar das filhas dele. Papai só viu que tinha mais duas porcas no chiqueiro.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Injeção
"Hoje eu vou chorar", dizia com pleno entendimento dos seus sentimentos aos quase dois anos de idade. O carro havia estacionado no posto de saúde, seus pais se surpreenderam com a frase. Não sabia o que era asma, ou tratamento, mas tinha a certeza de que não gostava de injeção. Uma por semana. Normalmente pai e mãe diziam-lhe que não doía, mas hoje ele estava experiente. "Mas porque vai chorar?", perguntou a mãe. Disse desafiadoramente: "Hoje eu vou chorar", convicto de seus ideais. Desceu do carro, e caminhou até metade do caminho de mãos dadas. A mãe tentava demovê-lo. "É só uma picadinha de formiguinha, não dói". Nada falava. Ao chegar perto, via a fila com outras crianças. Algumas brincavam e riam em sua ignorância ou coragem, outras já choravam, saindo da sala maldita, que todos aguardavam entrar. Pobres coitados. Se sentiu apreensivo, e pediu para ficar no colo. A mãe não o recusou, e continuava sua ladainha. Ele estava impossível naquele dia, e não dava atenção, era todo apreensão, atento para que nunca chegasse a sua vez. Ouviu a moça de branco chamar-lhes: "Mãe, é vez de vocês", apontando-lhes o dedo. "É a de asma", ela disse ao entrar na sala. Mãe logo comentou com a outra moça de branco, como quem contava uma anedota: "Ele disse que hoje vai chorar". A médica riu docemente e falou: "Vai nada, esse menino corajoso, é só uma picada de formiguinha". Respondeu: "Dói sim.", dando seriedade a situação. Logo a médica escondia o riso com a máscara branca, e tirava sua agulha de um isopor, com o vidrinho. Puxando o líquido da ampola, pedia que lhe mostrasse o braço. A criança não se recusou, senão ajudando, levantou a camisa com pesar e olhos fixos para os olhos da médica, mostrando sua coragem. Logo, sentia o ferrão do escorpião perfurando sua pele e o veneno gelado e ardido adentrando seu corpo. Deu um grito contido, e derramou duas lágrimas. Olhou para todos, e logo, voltou o rosto para sua mãe e disse de modo provocador, com a voz cheia de tristeza: "chorei".
sábado, 24 de setembro de 2011
Deus ex machina
Um certo mendigo cego de Colono certa vez me dissera que pudera ele uma só vez voltar ao tempo, converteria seus pecados em milagres, não por deixar de fazê-los, senão para glorificar-se ao fazê-los, pois a única culpa que sente hoje é por sentir-se culpado. Qualquer pecado não tem qualquer peso se o mais grave é aquele cometido contra si mesmo. O cego decrépito, já velho e moribundo se arrependia profundamente de culpabilizar-se por qualquer coisa pouco relevante. Me dizia em voz baixa, como quem revelava um segredo, que se soubesse que o mundo seria capaz de transformar-se no que é hoje, ao ponto de pecar não ter qualquer valor, jamais teria se culpabilizado por qualquer coisa sem importância. Cego era por si mesmo, ou qualquer estupidez de força maior. Deus ex machina, me disse em seu último suspiro.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Dia de preguiça.
Hoje me levantei da cama sem vontade. Senti a preguiça e pensei numa doença. Não queria ir trabalhar. Mas vou. A doença que pensei era muito "cara de mentira". Dor de barriga sempre é mentira, pensariam meus chefes. Não gosto que pensem que sou mentiroso. Tomei meu café da manhã com raiva. Comi queijo, mamão, iogurte, coisas de sempre. Ainda queria passar mal. Enquanto escovava os dentes, pensei em engolir a pasta de dente, e então me sentir mal. Ou ainda, engolir o anti-séptico, todos os dentistas dizem que não devemos engolir. Na embalagem inclusive dizem que não se deve engolir. Meus pais quando criança diziam para eu não engolir. O gosto tão bom, sempre me deu vontade de engolir. Não gosto quando as pessoas dizem o que eu devo fazer. Me lembra meus chefes, me dando coisas para eu fazer, prazos para cumprir, me obriga das demandas dele. Crie, diz ele, entregue, diz ele, anote, diz ele. Sempre tive problemas com autoridade. Na juventude, certa vez, briguei com um guarda. Ou melhor, quis brigar. Nunca cheguei a brigar com ninguém. Eu não consigo partir para ação. Eu quero o que eu não faço. Como o violão. Já quis aprender a tocar, mas nunca soube. Ainda quero. Quando vejo alguém tocando violão, penso, devia ter aprendido quando tive a oportunidade. Na juventude, entrei no conservatório, para violão, eu disse. Me disseram, você primeiro vai aprender flauta. Não gosto de aprender o que eu não quero aprender. Não fui mais. Não sei tocar flauta, só assobio. Mas poucos assobios, mas até que gosto. Tenho vergonha do meu assobio. Assobio baixinho, um som agudo, bem desafinado. De vez em quando meu assobio sai alto, coisa que eu nem controlo. Gosto de me perder no assobio. As vezes, no escritório assobio. Isso incomoda os colegas nos seus cubículos. Gosto de incomodar os outros. Quero que saibam que não gosto deles. Não deles, mas o que eles são para mim. Queria assobiar como um cauboi. Como o Clint. Gosto muito daquela música do filme de Leone. Mas não consigo assobiar. Começo com ela e acabo e acabo com a primavera de Mozart. Não sei como. Não sei nada de Mozart, não sou um erudito. Sei muito pouco de música. Conheço mais de musicas populares que eruditas. Só sei a primavera de Mozart. Gostaria de saber mais. Gostaria também de saber sobre livros. Talvez se eu fosse um erudito tivesse um emprego melhor. Já começo a ouvir a primavera. E mesmo assim tenho de ir trabalhar hoje.
domingo, 5 de junho de 2011
Desencontro
Certo dia encontrei alguém com um rosto familiar,
Curioso, lhe perguntei, "Com licença, nos conhecemos?",
Me respondeu, "Pois não, me chamo, Pedro."
Fiquei sem saber quem era.
Curioso, lhe perguntei, "Com licença, nos conhecemos?",
Me respondeu, "Pois não, me chamo, Pedro."
Fiquei sem saber quem era.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Hemorróidas e teoria da conspiração
Em 1954, um caso em especial virou a principal pauta entre os ufologistas do mundo todo: o famoso caso Russell. Contextualizando o episódio, uma nave alienígena teria sido encontrada em pleno deserto americano. Ela seria constituída por um metal dobrável, possuidora de uma propriedade nunca antes vista: após qualquer dobra ou amasso, ele retornaria ao formato original, logo em seguida. Tal nave e seus integrantes foram guardados na famosa área 51, pela CIA, organização que mantém em segredo as evidencias desse episódio e até hoje e nunca levou à público uma confirmação do fato. Contudo, extra-oficialmente, algumas declarações de pessoas diretamente envolvidas merecem atenção, algo que para alguns torna mais plausível acreditar na veracidade do episódio.
O primeiro é o testemunho do criador de gado John Mitchel, primeiro homem a encontrar a nave. Certa noite de agosto daquele ano, ele vira luzes no céu, e ouvira um estrondo muito grande, numa localidade perto de sua casa. John saiu com seu filho, e pode recolher ao longo do caminho, pedaços do metal supra citado. Esse metal veio a público apenas cerca de uma semana após, sendo exibido e filmado pela rede de tv local. Em uma dessas imagens, mostra John Mitchel com um pedaço de martelo, dando batidas fortes, e o metal voltando a sua forma original instantaneamente. A repórter Silvia Perry não contem sua surpresa e admiração, comentando que nunca havia visto algo parecido. Além do metal, o criador de gado fala sobre o que vira também: constituída desse tipo de metal, algo que parecia uma nave, em formato de cone (e não de disco como comumente se escuta dizer). Ela estava com a parte superior lançada cerca de três metros do que parecia ser a parte inferior. Dentro da parte inferior, três assentos ocupados por criaturas nunca antes conhecidas pelo homem: os alienígenas. Contudo, todas as três criaturas pareciam devidamente mortas.
John Mitchel logo compreendeu do que se tratava aquilo, e arranjou de levar um exemplar para sua, para tirar fotos e chamar seu amigo e vizinho Peter Odonell. Peter trabalhava junto com John em sua fazenda, exercendo o ofício de veterinário. Peter foi acordado à noite com um susto, ouvindo a movimentação intensa em frente a sua casa. Ouvira também o estrondo, contudo não saiu de casa para checar, pensando tratar-se de uma batida de trânsito, ou aviso de tempestade. Apenas com a chegada de John a sua casa, que pode tomar ciência da importância dos barulhos ouvidos anteriormente. Foi na mesa da sua cozinha que o primeiro alienigena, trazido por John e seu filho no teto do carro, fora examinado. Peter usou de seus conhecimentos veterinários para abrir a criatura e conhecer sua anatomia. Em alguns aspectos, segundo o seu testemunho publicado no livro "Autopsia de um alien", o alienigena parecia com um homem. O corpo com dois braços e pernas, aparentemente projetados para um andar bípede, e uma cabeça avantajada, mostrando algo que talvez reflita um enorme desenvolvimento do sistema nervoso. Contudo, o coração, como foi observado mais tarde, se fazia ausente. O que fora encontrado foi um sistema vascular, e todo ele rico de pequenas bombas durante os tratos venosos e arteriais. Tal anatomia seria uma das explicações para as prováveis causas para aquilo que pareciam sinais de hemorroidas. Em um orificio que parecia ser usado para evacuação, havia sérias dilatações, similares a varizes. Não se sabe contudo se tal problema de saúde é pré-viagem interplanetária, ou isso se deu por longas horas de viagem. Contudo, Peter Odonell, posteriormente, em seu livro, considerou a ausência de gravidade, longas horas de viagem sentados não seriam tão problemáticas.
Hoje se sabe porém que desde as idas do homem para o espaço, a ausência de gravidade acarreta uma série de problemas de saúde para os astronautas. A perda de massa é a mais comum, mais dentre elas, é a dilatação de vasos sanguíneo que destaco. Um dos momentos mais críticos é a entrada na terra, momento o qual se estabelecem uma volta repentina à gravidade terrena, e assim, os vasos antes ddilatados, sofrem uma tensão, originando assim varizes pelo corpo. A velocidade de entrada na atmosfera terrestre, gera uma força contra o assento, que aumenta o peso do astrounata, e assim a tensão nos vasos da parte anterior do corpo. Alguns astronautas, que já sofriam de hemorróidas anteriormente, relataram a piora do quadro após a viagem espacial, pulando do Grau I, para o Grau III ou IV. Sendo assim, especula-se que os aliens encontrados na nave tenham sofrido de algo parecido, contudo, os tecidos aparentemente mais frágeis que os dos humanos, possam ter colapsado a vida destes seres. É possível então suspeitar que essas varizes pelo corpo tenham sido sua principal causa mortis.
Peter passou cerca de sete dias com o corpo em casa, em segredo, na mesa de sua cozinha. Além de John e sua família, apenas Mildred Odonell, sua esposa, sabiam. A reportagem para a TV local realizou suas filmagens apenas na área da queda, e foram chamados pelo próprio John Mitchel. Contudo, os corpos dos aliens já não mais estavam lá. Além daquele que estava na casa de Peter Odonell, os demais já haveriam sido levados pela CIA no dia seguinte. Apenas com a reportagem que a organização ficou sabendo que tal evento houvera sido conhecido por civis, e eresolveram visitar criador de gado e seu vizinho. Levaram então o corpo e as amostras de metais recolhidas. É importante colocar aí a certa mitologia que se criou em volta desde então, ainda que hoje não haja prova material exposta ao grande público. Quando as autoridades irão se pronunciar? Ou as autoridades americanas estão velando algum segredo maior para a proteão de todos nós? Ou então, nada disso jamais aconteceu? Só nos restas teorias várias.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Notícia
A verdade é que, como muitas outras coisas em minha vida, não sei dar uma notícia, senão apenas pego-a pelo meio. Há algo a ser contado, definitivamente, isso eu o sei, contudo não contá-lo já em seu princípio até aquilo que deve ser escrito, ou melhor, fazer um devido começo com toda a sua esmerada assertividade, preparando tudo para que a história aconteça e nos leve atravessando do ao seu meio e fim, cumprindo enfim sua missão; isso eu não sei. Não é muito diferente quando se dá um aviso. Não sou daqueles que dizem que tem uma noticia ruim, pedem para sentar, enrada inicialmente o faticídio, para então, jogar de maneira suave aquilo que desde o começo se esperava. Sou daqueles que dizem dando uma lapada, colocam sem cuspe, e fazem os outros caírem por não estarem sentados. Mas me compreendam, não por maldade ou nada disso, apenas porque não sei por onde começar. Definitivamente há algo a ser contado, mas não saberia dizer-lhes qualquer coisa a mais senão aquilo que há de ser dito. Sei que de fato, como se diz as palavra, a ordem em que se diz essas palavras, mudam aquilo que se diz. Por isso, acredito eu, quero menos responsabilidade possível naquilo que se diz, senão colocá-las da maneira mais direta que posso, a modo de me livrar delas. Uma notícia ruim como a que tenho para dar-lhes, não merece qualquer introdução vigorosa, rodeada, floreada, pois afinal nada há de bom nela. Pedir para sentar-lhe é diminuir justamente o choque que ela poderá causar e isso tampouco é o que desejo. Não quero que se sintam bem com uma noticia ruim, quero que sintam-se mau, preoucpem-se pois é importante que haja pena, que haja sofrimento, pois só assim, compreeder-se-a tal notícia em sua importância. O que quero dizer é que os floreis, os pendurecalhos, os arrodeios, facilitam uma coisa que não é para ser facilitada. São apra os cardíacos e mulheres grávidas. Se estás enquadrado em algum desses, pergunto, estás sentado?
domingo, 17 de abril de 2011
Pé-de-aço
Um grande robô, meu brinquedo de natal. Nada aconteceu, pedidos feitos em vão. Apenas pedaços: "Só tinha esse resto na loja.", disseram. Uma perna de plástico, do tamanho de uma perna de criança de 5 anos, com um pé de aço que calçava 45. Isso é lixo, disse mamãe, Isso é tudo, disse papai, Isso é um pé-de-aço, disse eu.
Meio criança, meio adulto; meio humano, meio robô; meio amigo, meio inimigo; um pé inteiro, um robô pela metade. Era o meu brinquedo: Esse é o meu pé-de-aço!, exclamei. Pisada forte, firme, bico bom, peso de papel, para muitas coisas meu pé de aço seriam boas - completava em mim.
Vou jogar fora, disse mamãe. É melhor mesmo, disse papai. Escutando de longe a conversa que acontecia na sala, "Chuto quem tentar", pensei eu. Estava armado o conflito, meu pé protegido no quarto, enquanto mamãe na sala, termiando de arrumar, para ir logo lá, e papai assistindo tv, mas sempre alerta: ao menor sinal de conflito surgiria como reforço - do lado inimigo - Temos que sair daqui! Logo! Peguei meu pé-de-aço, corri. No quintal, havia de protegê-lo. Observei a movimentação da casa pelas janelas, via mamãe buscando entre os cômodos a mim e ao meu pé-de-aço. Ouço o meu nome e logo em seguida, cadê você?, em tom ameaçador.
É preciso preparar uma estratégia de defesa, pois mamãe há de chegar, invadindo o quintal com seus reforços. Ela fala alto para papai que está na sala: "Ele está lá fora, vai pegar aquele lixo dele". Olho para o meu companheiro o pé-de-aço. Escondo-me nos entulhos, antes que cheguem. Misturamo-nos entre pedaços de outras coisas em um quartinho nos fundos do quintal: madeiras velhas e estragadas, pedras de cimento, pregos e ferros enferrujados, bichos e besouros.
Está escuro, a noite chegava, e o inimigo não dá mais sinal. Despistamos, pensei. Não há luz no quartinho do quintal, em meio aos entulhos. Meu pé de aço brilha entre o lixo, ali, sem dúvida ele é o rei. Os bichos fazem seus barulhos, e logo as baratas tentam ganhar território. Nunca estaremos livres. Meu pé de aço pisoteia-as. Parece que sempre esteve preparado para isso. Luto insistentemente, quando um inseto entra por baixo da camisa. Tiro-a, e logo meu pé-de-aço, companheiro de batalha, salva minha vida, jogando-se em cima dela, em uma pisada forte!
Se fosse vivo certamente seria um nobre. Falaria com honradez. Me agradeceria por protegê-lo. Me convidaria para o seu castelo, faríamos uma festa. Lembraríamos das aventuras que tivemos. Agradeceria-me por servi-lo tão nobremente. Agradeceria-me por levá-lo ao seu reino. Dormiríamos. Acordaria no dia seguinte, com o espírito preenchido e preparado para novas batalhas. Me diria que não poderia ir, que tinha um reino para governar. Me diria que poderia visitá-lo. Nos despediríamos em uma solenidade, mas como velhos amigos.
Entro em casa, meu pé-de-aço fica em seu reino de entulhos, com uma batalha constante a ser vencida contra os inimigos artrópodes. Papai pergunta onde estive e digo que ele não entenderia. De fato, não entenderia. Mamãe pergunta pelo meu pé-de-aço, e falo que ele está onde tem que está. Lembro-me do meu amigo saudosamente, com respeito e admiração. Em seguida, mandam-me tomar um banho. Preparo-me para uma nova aventura.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
O Diário do viajante perdido: um encontro com o povo Irere-oe*
*Reportagem extraída da revista "Aventuras na História", edição 094, maio de 2011, editora Abril. Escrita pelo jornalista Caio Bezerra Silva.
Data do ano de 1997 a descoberta do conhecido "Diário do viajante perdido", quando pescadores da "praia do futuro", Ceará, por acidente, descobrem na áreia, dentro de uma combuca de barro, tais escritos. Na combuca, como viria dizer a historiadora Maria Cristina Figueiroa, professora efetiva do departamento de história da UnB, era claramente indígena, típico dos povos irerê oê, que numa tradução livre, viria a significar povo pé de maré., dizimados antes da chegada dos portugueses por outros povos. Ainda não se tem uma data determinada para a época em que fora escrito, contudo apenas se sabe que antecede cerca de 200 anos a chegada das embarcações de Pedro Álvares Cabral, o que apenas torna o diário um achado ainda mais interessante e relevante para o estudo do Brasil pré-colombiano. Contudo, o maior mistério que cerca tal obra é o seu autor. O texto está escrito em latim, de autoria de aparentemente um monje beneditino. Em nenhum momento fica claro a nacionalidade do autor, tampouco como ele chegara nessas terras que num futuro longíquo viria a ser dominada pelo homem europeu. O escrito parece estar faltando algumas partes signifitivas, que facilitem o entendimento ou o trabalho dos historiadores, contudo, o que há de mais relevante no texto são alguns dos relatos do monje sobre os povos irerê oê. O autor, ainda que não fosse um pesquisador, preencheu seu diário pessoal de observações a cerca do povo indígena, e o estranhamento com a nova cultura que entrava em contato, tornando-se me alguns momentos relatos ricos em detalhes sobre os hábitos e costumes do povo da praia. Em alguns momentos, há a tentativa de reproduzir os sons da língua indígena, no alfabeto europeu, assim como os curiosos relatos sobre os hábitos sexuais dos pertencentes da tribo, seus rituais de guerra e culto adivindades sagradas: o Iurarê, o que seria o espírto da maré encarnado no corpo do chefe da tribo, e o Maptchumbare-oê, o espírito do chão encarnado em todo o povo da tribo, que daria força ao Iurarê, como seria explicado no diário.
Ainda em estudo, e não totalmente traduzido, em entrevista com a chefe do Núcleo de Estudos Pré-Colombianos, a professora Maria Crsitina Figueiroa, traz alguns trechos de algumas revelações que podem proporcionar um novo entendimento sobre o povo Irerê-oê, sobretudo, sobre o seu declínio. Contudo o diário ainda é considerada uma fonte histórica incerta, pois não conseguiu-se ainda definir uma época específica para a origem do viajante do diário. Assim como não há o conhecimento de qualquer outro relato sobre tal viajante, a não ser tal escrito. Afinal de contas, quem é esse monje? "Não sabemos. E o texto com muitas partes faltando, muitas pelo tempo que se perderam, é um texto que não tem uma continuidade e assim fica muito dificil de haver um entendimento único.", diz a historiadora. O texto escrito em latim dificulta ainda mais saber a nacionalidade de tal turista, contudo, o que acredita-se, é que ele seja um náufrago da terceira embarcação francesa, que aventurou-se a navegar pela costa do Noroeste da África.
No período de 1300, a 1400 aproximadamente, há o registro da tentativa secreta da Igreja Católica de aventurar embarcações por essa área, em busca do que pode-se chamar uma cruzada ao oeste. Todas elas mal sucedidas, levando a um abandono abrupto de tal empreitada, com o fortalecimento dos estados modernos. Sabe-se que tal embarcação perdera-se, acreditando que tenham se afastado um pouco mais a oeste do que imaginara-se, e se chocando com os rochedos da "Falha geologica da Calmaria e Boa ventura", no oceano Atlântico. O monge teria ficado a deriva no mar, e chegado a então praia desconhecida pelo homem branco, inexplicavelmente, vivo. A data estipulada pelo teste do carbpono 14 é aproximada com a data da embarcação, assim como são essas as únicas embarcações européias que tentaram se arriscar para esses lados no período. Fala-se que muito dos mitos conhecidos sobre o fim do mundo à oeste, passaram a existir de tais fracassos marítimos, enriquecendo o imaginário da população medieval.
"O que há de mais importante neste diário, são os dados fornecidos para o entendimento do fim do povo Irerê-oê. Quando nosso viajante chegou aqui, eles já se encontravam decadentes." A pesquisadora se refere ao longo período de guerra entre outras nações indígenas, a fome e rituais sanguinários. A região da praia não vinha sendo próspera, assim como a principal característica desse povo, o nomandismo, levavam a constante mudança de território e ao encontro com outras nações, sendo eles, muitas vezes, encontros sanguinolentos. Contudo, jamais podem ser caracterizados como um povo imperialista, ainda que nas guerras, quando vencedores, havia a aniquilição total dos inimigos e, como de costume, a antropofagia. Raramente havia alguma aquisição ao costume de outra cultura. A cultura oral e a caracteristica de ser um povo fechado ajudou para que se soubesse menos sobre esse povo, e por isso a importância do achado histórico. Ao que parece, não terem matado o monge foi algo incomum, contudo acredita-se que o fato de o terem achado vindo do mar, o povo o deixou conviver entre eles, mas nunca como um igual. A religião de cunho animista, endeuzava, entre outras coisas, a dinvidade do mar, e ao monge fora dado um nome relativo ao mar, apesar dele jamais ser escrito no diário. "Ele fala em certo momento que o chamam por um nome que ele não consegue repetir. A língua das pessoas da praia é composta por alguns sons guturais, e que as deformações infrigidas na língua, tornam impossível para o monge depronunciar. ... Em certo momento ele tenta criar uma escita para a lingua do povo, mas é algo muito limitado, havendo apenas os caracteres que soam iguais as letras do alfabeto europeu.".
O período que o monge chega, é justamente em um momento em que o povo Irerê-Oê, após um conflito violento com os guaranis, movem-se para um outro território, totalmente desconhecido, para logo irem de encontro a uma outra nação. É preciso antes colocar que mesmo nomades, os Irerê-oê transitavam por um território o qual se repetia: após sair de algum lugar, poucas vezes iam a algum lugar novo, senão voltavam a algum lugar que já estiveram. "Sabe-se que há algo de sagrado na peregrinação desse povo, pois voltar a terra anterior era o reencontro com os antepassados e as divindades da natureza. Era voltar a região das falésias, ou ao arvoredo sagrado, todos lugares os quais se ligavam histórias míticas e reais de lutas dos antepassados e divindades. Isso também explicaria alguns empreendimentos imperialistas dos Irerê-oê, quando no encontro com outras nações, a retomada do território antigo era um momento em que havia a transfiguração e alcançava-se a divindade. Eles então mantinham sempre um movimento que parecia um zigue-zague, abandonando o território para reencontrá-lo e reconqusitá-lo", fala Maria C. Figueiroa. A aniquilação do outro povo, dava-se na medida em que se estipulava o sagrado, tranformando a guerra na principal forma de encontro com o sagrado. Contudo, a violência frequente os levou também a um período de decadencia, pois as constantes guerras e conflitos os levaram a sua miséria economica e humana, dado os altos ínidices de mortalidade.
A chamada hoje praia do Futuro então marcou o encontro de um povo derrotado, em pleno colapso, com um estrangeiro, vindo da principal divindade, o mar. Em nenhum momento o monge parece reconhecer tal tipo de movimentação nômade, senão relata em detalhes o seu assombro com os rituais infrigidos a alguns dos Maptchumbare-oê, pelo Iurarê. Dado as derrotas constantes, o Iurarê, a dinvindade do mar encarnada no chefe da tribo, tinha o poder para reclamar mais corpos, aqueles que não forma ganhados no conflito. Quando vitoriosos, os corpos ofertados eram os dos outros povos, aniquilados. Contudo, quando derrotados, haviam de oferecer corpos de seus proprios integrantes, dos Maptchumabare-oê, o que consistia em esquartejar alguns e jogá-los ao mar, e outros, servidos para que o Iurarê o comesse. Sua alimentação era basicamente antropofágica, diferentemente do Maptchumbare-oê, que viviam da caça de animais e colheita de plantas e frutas nas matas. Após a digestão, as fezes do Iurarê eram levadas ao mar, quando não usurpadas pelos demais integrantes da tribo, que as enterravam ou comiam, na tentativa de conseguir mais força e poder entre os Maptchumbare-oê. Completa a pesquisadora: "Ser forte para os Urarê-oê significava sobreviver à guerra ou a fome insaciável do seu chefe e sua divindade, basicamente." Para um povo que já havia sido derrotado, e sofrido os pesares de constantes guerras, havia uma chacina ainda maior dentre os seus semalhantes, enfraquecendo-os ainda mais enquanto nação.
Os hábitos sexuais das tribos também são parte do relato, havendo uma descrição minuciosa da tradição de iniciação sexual das mulheres, quando eram defloradas pelo Iurarê, na medida em que os Maptchumbare-oê assistiam. Para depois, no mar, mergulhar e engravidar. Acreditava-se que era necessário ter relações sexuais com vários homens para que a criança nascesse completa, sendo filho assim da nação. As relações de parentesco modificavam-se, não hevendo um reconhecimento de quem era pai ou mãe, senão todos cuidavam de todos. Entre os Maptchumabre-oe não havia diferença alguma. Haviam apenas aqueles que eram considerados mais fortes e os considerados mais fracos, mas todos se encontravam no mesmo nivel social. Tal como outras nações indigenas, as crianças eram criadas por todos, e todos viviam nos galpões ciruclares comunais, erguidos com palha de coqueiro e madeira. As crianças, por volta dos doze anos eram considerada adultas, e seus pais tinham a obrigação de cortar-lhes a língua com dentes de tubarão, birfucando-a, em sinal de que não era mais criança.
O monge coloca que é comum ele passar muito tempo com as crianças, e que por isso, por também não ter a lingua bifurcada, vive como uma criança na tribo. Estas são protegidas, não sendo entregues ao Iurarê como um corpo ofertado, tampouco levadas aos conflitos com outras nações. Portanto, o monge esteve longe dos conflitos a maior pate do tempo, e apenas vivenciou a guerra quando uma nação guarani avançou sobre a localidade da tribo em que estava, havendo várias mortes, inclusive de outras crianças. Foi neste momento que descreve o primeiro ccntato ocm os rituais preparatorio para a guerra, quando se fabricavam armamentos e realizavam mais sacrifícios. "Há um trecho no diário que o monge descreve seu horror com aquele povo indigena, que mesmo havendo lhe acolhido, e mostrando um espírito cristão em germem, em tantos momentos, referindo-se a partilha comum e ao que chama de caridade, exibem uma verocidade demoniaca no que diz respeito aos hábitos relacionados a guerra."
A aniquilação do povo não se sabe ao certo, apenas que desapareceu completamente enquanto nação num intervalo de menos de cinquenta anos após o chamado início do período de decadência. Contudo, muito se deu mais pela dispersão e adesão a outros povos que por uma aniquilação total em conflitos armados. A fome insaciável da dinvindade do Iurarê também causavam fugas e abandonos dos Maptchumbarê-oê. Por fim, o relato desse viajante inusitado é abruptamente acabado, dado sua incompletude, não sabendo ao certo qual fora o fim de tal europeu perdido nas praias brasileiras pré-colombianas. Contudo, sabe-se hoje da importância desse diário para o entendimento de vários hábitos e fatos históricos do povo Irere-oê, sem o qual estariam perdidos. Perguntado a chefe do Núcleo de Estudos Pré-colombianos, quando esse diário será totalmente publicado então? "É importantíssimo que publiquemos esse diário, é um achado sem tamanho para a história do Brasil; contudo, é preciso ainda que haja mais pesquisa - ainda não terminamos de traduzí-lo todo se quer, e uma publicação só será possível quando este trabalho de tradução e estudo estiver concluído. Mas garanto, não demorará mais tanto." Esperemos então.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Dos nomes indesejosos
Rivaldo ganhou esse nome por causa do jogador, pai fanático por futebol e mais ainda pelo Santa Cruz. Quisera homenagear o futebolista que jamais conhecera pessoalmente. Havia ainda uma outra segunda tentativa de fazê-lo, o filho, um outro jogador de sucesso. Para decepção do pai, o filho nascera sem aquilo que se chama corriqueramente de talento. Se havia alguma semelhança com o jogador eram as pernas tronchas, que inclinavam levemente para a esquerda. Mais do que uma hablidade especial, as pernas eram motivos para muitas quedas e passes errados. Contudo, se não foi para o futebol que Rivaldo nasceu, certamente haveria de ser para outra coisa que não esportes. Primeiro por que futebol era o único jogo permitido por seu, pai, qualquer outro era motivo para que se questionasse a masculinidade do menino. Não que ele não tenha tentado o voleiball na adolescência, mais tarde, mas não sem sentir algum tipo de atração pelos colegas do time. Isso o pertubou um pouco e terminou por desistir, foi na época que decidiu-se fazer vestibular para direito. Contudo, antes, ainda na infância, chegou a fazer escolinhas de futebol, e participar de avaliações de olheiros do Santa, contudo as semelhanças das pernas tronchas e no nome não foram suficientes para encantá-los. Ficara triste na época, pensara que decepcionara o pai, o de fato o fizera. Depois desse episodio, o pai desistiu das ambições futebolistícas para o filho. Mas esse não foi o único fator, senão a chegada do seu segundo filho, irmão mais novo de Rivaldo, Ronaldo.
Ronaldo era, como todo segundo filho, aquele criado sem os erros do primeiro, acreditara o pai. O menino nasceu sem as pernas tronchas, o que pareceu um bom sinal e logo após dar os primeiros passos, o pai já colocava a bola para ele chutar. Acontece que Ronaldo, nessa época, se interessava mais em pegar a bola com as mãos para levá-la a boca, que chutá-la novamente. O pai pensou, "Ronaldo é nome de jogador de linha, mas se for pra ser goleiro, não vejo muito mal nisso, pelo menos ainda via ser jogador". No outro dia, o pai comprou-lhe luvas, grandes ainda para a sua idade e colocou no seu quarto. Ronaldo crescera muito e as luvas ainda não cabiam adequadamente na sua mão. Ronaldo fora uma criança que gostava de brincar, de correr, de pular, mas não com bola. Tinha um hábito até os quatro anos mais ou menos de colocar pedras na boca. Isso lhe ocasionou muitos vermes, e foi se tornando uma criança miúda, pequena, raquítica. Não cresceu adequadamente, e ficou pequeno para a decepção do pai, que ambicionara um goleiro. O menino porcausa do tamanho, quando ia jogar, ou não era escolhido, ou era derrubado facilmente pelos outros garotos. Começou a ficar com medo do jogo, de ser derrubado pelos outros meninos, o que lhe causou uma certa ojeriza a essa paixão nacional. Quando foi colocar o menino para fazer o teste para ir para o Santa o olheiro não o deixou jogar. Disse que era para crianças maior de dez anos. Ronaldo respondeu, tenho 10 moço, mas ele já havia lhe dado as costas. Após esse dia, Ronaldo pediu desculpa para o pai, e cresceu um pouco mais na adolescência. Tentou continuar no esporte apenas como hobby, também para não decepcionar o pai completamente, como fizera Rivaldo, mas de fato nunca quis seguri essa carreira. Já adulto sabia que não fora premeditado colocar pedras na boca, mas se soubesse que isso iria lhe ocasionar o abandono do futebol, teria feito novamente. A noite, as vezes, ainda podia sentir o estalar das pedras no dente, não sem um estranho sentimento de saudade. Pensava consigo:"O gosto da infância".
O pai, desgostoso da vida, após Ronaldo ser rejeitado pelo olheiro, passou a ter um plano meio delirante, de ter novamente um filho, um terceiro, que não lhe decepcionaria nos quesitos futebolísticos ideais. Consultou a numerologia, para saber o nome ideal: um nome certo o qual selaria o destino daquela criança no sucesso inescapável - Edson Diego. Se assombrou com o Diego, dissera-lhe ao numerologista, mas se era para que não houvesse erro, o faria de bom grado. Unir forças antagonicas pode ocasionar uma grande explosão de talento, pensara consigo. Engravidou sua mulher, esperou algum tempo, e no primeiro ultrasson, aos 4 meses, o médico anunciou:"É menina". A mãe falou: "vai se chamar Isadora, como a bailarina."
sexta-feira, 11 de março de 2011
do fim do personagem
É irrelavante a maneira de que se começa uma história, se antes sabe-se já como terminará. Uma história finaliza-se com a morte de seus personagens, digo, as que em geral se contam, tradição grega, ou talvez a morte de alguns, aquilo Medéia nos resume e ajuda: quando não há mais nada que se possa fazer. Fim, morte, num sentido mais latu, que nega qualquer outra possibilidade a nós e, mais ainda, aos personagens. Se contarei uma história trágica ou não, acredito que, contudo, conjunção adversativa preciosa esta, o percurso que nos levará ao seu desfecho, as estradas tortuosas, há de ter algum valor, que ao menos nos prenda por alguns momentos, antes que nos encontremos com o que há de fatídico. Contudo, a cada página, parágrafos que se passam se contam as palavras que ficam para trás, e nos envolvem naquela trama e teia, em que após algum tempo, grande ou pequeno, após nosso envolvimento, o autor nos brinda com o inevitável: o fim. Certo em toda história, nos é certo, tal qual a condição humana, que tudo se acabe, e aquele breve mundo fictício, construído por palavras encaixadas tal como um prédio, se desmorone ao ser fechado o livro. Acredito eu, que o fim trata-se sobretudo de uma briga de seu autor com aqueles personagens, uma vez que é impossível para eles escreverem mais. Há os autores que não conseguem matá-los, mas tampouco terminá-los, abandonando-os, e delegando o seu fim a própria incompletude: K. nos um é exemplo caro. Contudo nos deleitamos mais com a morte alegre e saudável das tragédias, que nos preenchem a alma a séculos, de pessoas que comem seus filhos, o suicídio, ou mesmo o parricídio, colorindo nosso imaginário, com pé no romantismo, dizendo-nos que é isso que nos espera, nada além do desígnio dos deuses.
Dada uma introdução sobre o fim, inicio contudo minha história, a qual vocÊs já devem antever um fim possível. Haverá morte. Talvez algum filho (gosto de Medéia), pois como autor, ainda não decidi meu personagem, ou mesmo qual será o seu drama. Contudo, já vejo linhas se formarem, num arranjo que apenas espera pela sua mote precoce, algo que me parece apenas indicar a resistencia própria para que eu escreva. Afinal, um inicio, apesar de um inicio real ja dado, ainda falta nesta historia a qual apenas antevemos o fim. De todo, não haverá pele de velocino dourado, olhos furados, amores de famílias rivais, herdeiros de tronos que se veem fantasmas, baratas gigantes, pessoas em geral. Apenas um personagem, sem nome e sem história, que apenas espera sua morte.
Se a sua vida, digo, a vida de um personagem, entendida enquanto o periodo que dura a relação com o seu autor, terá algum designio, ou aidna algum arco dramático, se aprenderá uma lição de moral, nada disso nós saberemos, pois o niilismo do autor nega-lhes a vós leitores, o direito a saber. Ou melhor, nego-lhe, ao persongem uma vida, pois só lhe desejo a morte. É esse personagem, o qual não existe, ou existe na negação de uma história, que encontra-se cerrada a tragédia. Como pode haver uma história, de morte, sem a vida. Quero apenas relatar a morte do personagem, e não a morte como personagem, contudo, apenas falar-lhe a morte, sem conceder-lhe um momento de vida.
Não posso começar falando que em um caixão cinza se encontrava F. Morrera assassinado, nunca ligara para a saúde, ainda que vivesse no século XXI. Fora advogado, pai de alguns filhos, nunca assumiu nenhum, e um lhe matara, o terceiro. Estas palavras já lhe falam da vida, da vida deste personagem ao qual tentei negar-lhe um nome e substitui, arbitrariamente por uma letra. Tarefa destinada ao fracasso. F. é um nome, se está foi a história da vida de F., a história da morte de F. ndefinitivamente não e sabe, só se sbae na medida em que F. não existe. Por isso apenas falei do final. F. não existe. O que existiu dele, já começo a desgostar, e quisera nunca ter escrito algumas palavras que o fizeram existir. Já desejo matá-lo, e como um todo, não ao meu personagem apenas, senão ao seu filho, o assassino, e qualquer um dos outros filhos que F. jamais assumira por preguiça deste autor em criá-los e conceder-lhes alguma vida. Já desejo o fim disso, talvez vocÊ queria criá-los. Eu não.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
A qualquer momento: nós, os incorrigíveis.
Hoje, se falarmos que a preocupação dos cidadãos da cidade de São Paulo da segunda metade do século XX era o trânsito e a progressiva paralisação completa que impediria o deslocamento, assim como um dos principais causadores de mortes e verdadeiras tragédias, nos parece algo absurdo. Preocupação essa que rondava o mundo, e sobretudo, as principais cidades do mundo. É possível ver no filme de um cineasta francês, Jacques Tati, lançado comercialmente no ano de 1971, filmados a moda antiga, com câmeras e atores reais¹ cena que anunciava tal preocupação: as pessoas não conseguiam andar com seus carros devido ao intenso trafego de veículos, saindo então todos e indo andando entre os automóveis. Cenas como essa, quando assistida em seu tempo, encontrava-se enquanto semblante da sátira social até meados da primeira metade do século XXI. Observe como o crítico não muito ilustre Jean-Marc Badabie defende o valor artístico da cena através da sátira social, em artigo publicado na revista "Carrihers du cinema" (1971, p.72): "A cena final, emblemática, relevante pela sátira social, revela a genialidade do cineasta no uso de planos contínuos e humor, preconizando assim, o futuro drástico - ou a presente necessidade de freios para evitar o choque e a paralisação total." (1: apesar de indiscutível progresso nas técnicas de produção e de linguagem cinematográfica, a película remonta à técnica desse passado, que hoje, já inexistente, torna-se incessível para o público geral, além de completamente desinteressantes para aqueles que não assistem acompanhados da curiosidade típicas daquele que buscam a um documento histórico. É importante ver como obras de arte, ligam-se com seu tempo, assim como, sobretudo, o valor artístico; contudo, essa é outra tese já bastante discutida, que, se possível, e não havendo colapso total da nossa sociedade, pretendo desenvolver em outro texto dedicado ao tema).
Apesar dos elogios, hoje, descontextualizada, é uma cena chata, que não gera humor por completa falta de diálogo com o público. Contudo o que não esta em questão é o valor artístico do filme, mesmo que este tenha mudado (se algum dia já teve), senão a ilustração do tempo e os hábitos que mudaram por completo desde a criação do teletransporte. Vemos no filme a ilustração do momento histórico em que se pensava a criação de alternativas para que a produção não parasse por completo. As cidades encontravam problemas de poluição (algo que não mudou desde então), longas horas de trafego intenso, e sobretudo, as pessoas se atrasavam, tendo como desculpa mais freqüente, o transito. Esta é sem dúvida uma desculpa válida naquele tempo. Hoje, com a comercialização indiscriminada dos iTransports, criação sem dúvida nada menos que revolucionária, já foi visto como alternativa definitiva para todos os problemas relacionados à locomoção e deslocamento no espaço. Contudo, como falamos aqui de comportamento humano, o que se observou ao longo dos cinqüenta e dois anos desde a sua criação, foi o progressivo aumento de atrasos e cancelamento de compromissos, multiplicando e isolamentos cada vez mais freqüentes: o número enorme de pessoas que não saem mais de casa se prolifera por todo o mundo, deixando de ser uma prerrogativa japonesa. Pessoas mais idosas, que cresceram ainda na época dos automóveis ficam abismadas ao verem as ruas vazias. Falam de seu passado como tempos gloriosos, em que o ar havia mais fuligem e barulho de pessoas nas ruas. Hoje tudo o que se escuta é o vento e o ranger das estruturas dos prédios decadentes que faltam manutenção.
É preciso antes, citar o extenso estudo realizado pela empresa da Apple, criadora dos iTransports, que após a colocação do produto do mercado e sua completa difusão, sendo adquirida pelos governos, primeiro os tigres asiáticos e países africanos, que foram usados enquanto cobaias², observou e um estudo extenso feito em mais de 2 anos de pesquisa o motivo o qual, apesar dos imediatismos, os atrasos e abstenções de compromissos foram registrados nas empresas um acréscimo, completamente diferente do esperado. A idéia lançada inicialmente pelos detratores dos iTransports, e rapidamente difundida, era a de que o transporte não era imediato, senão havia algum delay na viagem, e por isso os atrasos. Aliava-se a isso as freqüentes queixas de que não era uma viagem segura e causava enjôo em algumas pessoas. O boato se difundiu rápido, havendo uma diminuição significativa no uso e na venda em relação ao ano anterior, que gerou a necessidade de um estudo que comprovasse justamente o contrário. O enjôo causado foi logo justificado, devido ao espectro de luz que era emitido. Tal estudo propiciou a mudança para os modos UV, ou UVB ou o RED-UVB, que torna a viagem mais confortável e menos enjoada (contudo, as acusações de exposição de longo tempo ao aparelho causa câncer no olho ainda se sustentam). (2: é importante destacar que, apesar da completa segurança que estes aparelhos divulgam, e da confiança que se tem hoje no aparelho, houve uma resistência no mercado de países com índices de escolarização mais altos em suas populações, dentre as principais suspeitas: 1)câncer; 2)desaparecer; 3) o perigo de se fundir com uma mosca ou algum outro corpo que se colocasse junto; 4) aparecer em algum lugar indesejado, 5) haver órgãos em lugares errados no deslocamento; 6) viajar através de uma outra dimensão, havendo a possibilidade de liberar maus que destruíssem a Terra; 7) a viagem causar enjôos; 8) a ruína das grandes empresas de automóveis, empreiteiras e construtoras de estradas, pagando aos governos para a proibição do produto em seus países. Muitas das suspeitas confirmaram-se, mas não houve, contudo, um impedimento para a difusão do equipamento, sobretudo, após ao desenvolvimento econômico rápido que o continente africano sofreu e ao colapso das empresas ligadas aos transportes e criação de estradas.).
A acusação mais grave, referente aos atrasos, foram investigadas, onde foram levantadas inicialmente duas hipóteses, as quais estariam todas elas ligadas a problemas do aparelho: 1) apesar de o delay não ser observado no momento em que o equipamento é novo, aparelhos mais antigos produzem esse delay, devido ao desgaste rápido das cápsulas de lítio; 2) o delay acontece devido a proliferação dos aparelhos e as linhas de transmissão via vácuo congestionam-se, havendo diminuição do fluxo de informações e células humanas. A segunda, mais assustadora para os pesquisadores, preconizava a volta ao trafego intenso e transito, o que os iTransports vieram substituir e extinguir (quem não se lembra do slogan: "O Agora nuca foi tão imediato!"). Reduzirei os aspectos técnicos das pesquisas, apenas destacando seus resultados finais. Para a refutação da primeira hipótese foram recuperadas amostras de aparelhos dos primeiros lotes vendidos, onde se constatou que as cápsulas de lítio encontravam-se conservadas, mostrando-se inclusive, inúteis, e não havendo razão de sua colocação no aparelho. Medidas de produção foram anexadas à mesa de produção, sendo elas retiradas por completo, barateando os custos e a acessibilidade às classes C que ainda se encontravam à margem do equipamento. A segunda hipótese confirmou que as vias a vácuo não eram possíveis de congestionamento, uma vez que se proliferavam através de ondas e não de partículas. A leitura do aparelho receptor que havia alguma demora, contudo, em nenhum momento mostrou-se superior aos 2,03 segundos, muito abaixo aos vinte minutos observados na média dos atrasos. Sendo assim, a hipóteses relacionadas a direitos com a fabricação e problemas internos dos iTransports foram excluídas. Contudo a pergunta relacionada aos atrasos das pessoas que se intensificaram não foi respondida através deste estudo, senão apenas da seguinte maneira, tal como coloca Gunter Fassbender, diretor da pesquisa, em defesa da empresa: "Enquanto problemas físico do aparelho, não foram encontrados nenhum o qual justificasse os atrasos, apenas refutamos as acusações impróprias sobre um possível delay. A justificativa para tal fenômeno so nos pode ser entendida enquanto fenômeno social, e não físico, e portanto, não cabe a nos responder. Chefes, se se incomodam com os atrasos, cobrem eles dos funcionários à moda antiga e não acusem nós, profissionais sérios, ou o nosso produto. Ele é, portanto, seguro e imediato, tal como veiculamos em nossa propaganda."
Sendo assim, já passados 23 anos desde a pesquisa realizada, a resposta foi encontrada no comportamento humano, que visto sinais de novos tempos, encontrou uma inesperada resposta para o imediatismo proporcionado pelos iTransports. Os atrasos eram humanos, e as desculpas e acusações indevidas, mais ainda. As pessoas, tendo em vista a possibilidade real do deslocamento imediato, traduziram isso na famosa frase "a qualquer momento", cujo único obstáculo para o deslocamento, era a locomoção até o aparelho individual na sala de estar (em pesquisa realizada em sete países, confirmou-se que os iTransports eram colocados na sala de estar, lugar para receber visitas). Sendo assim, a qualquer momento tornou-se ao longo do tempo, a única possibilidade de futuro em oposição ao imediatismo. Uma análise do imaginário de nossos tempos que ganha extensão diante do absolutismo do imediato é justamente a reivindicação da possibilidade de um futuro, cujo propicie uma vivência mínima. Os atrasos se intensificam ao ponto de hoje, muitas pessoas tem seus iTransports em casa sem usá-los, e estão completamente isoladas de outras pessoas. O aumento assombroso, e o colapso das relações humanas são justamente o absolutismo do agora, que freiou completamente o fluxo. O fato de grande parte das populações dos mais diversos países estarem neste progressivo processo de isolamento e absolutismo da individualidade e do agora são marca de nosso tempo, cujos efeitos drásticos já podem ser vistos em conseqüências reais: 1) a crise econômica, uma vez que as pessoas não vão mais trabalhar; 2) a dominação e completa dependência do homem pela máquina; 3) a crise de alimentos, que em poucos anos, já levou a inanição várias populações, e extinguiu grande parte da América latina, continente com vocação para a pobreza; 4) a perda de línguas e idiomas, os quais muitos já são, em um período inferior a 50 anos, línguas mortas; 5) a morte dos idosos, que reduz hoje a expectativa de vida para 58 anos. A explicação encontrada é devido a rápida diferença e descontextualização daqueles da era dos automóveis, cuja vida parece ilógica e deslocada totalmente nos dias atuais; 6) a redução no número de nascimentos, que progressivamente vem sido reduzido. Numa análise nos dois últimos anos, no mundo todo, mostrou um número muito maior de mortes em oposição ao de nascimentos. Fazer um bebê implica em geral sair de casa, o que traz nada mais senão uma atualização do dilema, a qualquer momento.
Esses são os poucos fatos listados que estão relacionados à criação não menos que revolucionária que trago neste ensaio. Existe hoje alguns movimentos, que têm invadido a casa de pessoas e destruído os iTransports, contudo, os meios alternativos de deslocamentos já estão quase que extinguidos, não havendo combustível para os carros que sobraram, ou animais que sirvam de montaria. Resta nada menos que o velho caminhar, que surge como único recurso. Contudo,as ruas vazias, e ausência de portas nas casa mais novas, sendo entrada apenas possível através dos iTransports, impedem que renegados se encontrem nas ruas, senão apenas dos aparelhos, o que traz novamente o problema da corrosão do tempo cronológico, havendo a perda total de um tempo objetivo, diante da supremacia do individual. O que perdeu-se portanto, é a sensação de grupo. Se foi viver em grupo que nos caracterizou como animais mais desenvolvidos e possibilitou a evolução, deixar de sê-lo é portanto, o nosso fracasso: um fracasso coletivo e incorrigível.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Manual de Superstições I - o vôo almadiçoado da coruja
Condicional: Se uma coruja passa por alguém num raio de uma esfera de até 30 metros, estabelecendo assim contato visual e/ou auditivo, enquanto que, ao mesmo tempo em que tal contato é estabelecido, cantar, fortemente ou não, de modo que se escute ou não, algo de ruim acontecerá: 1)com você; e/ou 2)com algum familiar; e/ou 3) com algum conhecido. No entanto, a única maneira de impedir tais acontecimentos futuros prováveis é se aquele que estabelece contato com a coruja dizer para ela, ainda enquanto a enxerga e/ou a ouve: "Vai-te só!".
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Pedaço
Muitos anos depois, quando a doença já havia destruído suas memórias mais recentes, e não reconhecia com facilidade seus parentes, chorou no quarto a noite, sentindo saudade da infância, dos seus pais, de seus irmãos e de seu filho morto. Lembrou-se dele, e misturando as memórias, situou-o na mesma época de menino, quando costumava roubar doce no fiteiro, na esquina da rua de sua casa em Bairro Novo. Nesta época, de tão baixo que era, não conseguiam vê-lo através do balcão enquanto metia a mão puxando a prmeira coisa que agarrasse. Depois, disparatava na carreira, enquanto sua única preocupação era não levar tabefe de guarda ou que sua mãe descobrisse, coisa que sempre acontecia. Vez ou outra, seu filho costumava tá ali junto, se recordava, correndo com ele, dava lição ainda: "pai, você não devia fazer isso. Você também não devia comer tanto doce", e no quarto escuro, ocm lágriams entre as rugas, respondia: "eu sei, é errado, mas é que eu gosto tanto de doce". Quando chegava em casa, mãe perguntava logo onde ele arranjou dinheiro pra comprar doce, e dizia, "foi meu menino", e Jõao sempre enconbria, "é fui eu vó". Mãe não reclamava com o neto, dizia que tinha era que mimá-lo, e iam jogar bola os dois. Não se lembrava bem se tinha sido no último natal ou no aniversário do seu menino que ele deu aquela bola para ele, mas já estava gasta, e decidiu-se que fazia tempo suficiente, e que jogavam com ela a bastante tempo. João reclamava vez ou outra, "quero uma nova pai", e ele dizia, "so no seu aniversario pq eu nao tenho dinheiro, ou você pede pra mãe, ou espera eu crescer pra eu trabalhar e poder brincar", e João ficava com raiva, e fazia manha, e diminuia de tamanho. Ficou tão pequeno que desaprendeu a andar, teve que colocar fralda, e joão não falava mais nada. Anos depois, ali na escuridão ele chorou de novo, quando viu ma parede branca do quarto, o som da tv atravessando a sala junto à voz de sua senhora. Era Lalá quem trocava as fraldas de João, e nessa época ele só sabia jogar bola, e roubar doce. Quando se metia ele e seus irmãos, a correr, ou sair coletando jornal velho pra ter dinheiro, e inteirar a feria de casa, lalá ficava com mãe. Brigavam muito entre si, e depois brigavam com ele, e diziam que ele não era um bom pai, e aí ele pegava o dinheiro da feira e comprava a bola pra João, e íam brincar. Depois na rua, sempre na rua, diziam pra ter cuidado com os moleques, e depois diziam que os moleques eram eles mesmos, os dois, joão e seu pai, soltando fogos de artifício nas caixaas de correio da rua, mijando nos muros dos vizinhos que eram inimigos de vô, sempre correndo. Quando viam juntos, brincando pai e filho, quem gostava de vô, dizia, "que felicidade ver esses dois juntos, eles são inseparáveis. é tão bonito ver pai e filho tão amigos." Mas vez ou outra também diziam diferente: "Com esses dois, as ruas ficam impossíveis! Ainda mais com um pai desse!". Ele não se importava, não sabia que era pai, mas sabia que João era o filho dele. Quando falavam mais duro, diziam que ele tinha que ter mais responsabilidade, principalmente vó, que tinha que trabalhar, e ele replicava, "mas eu sou só uma criança", e tudo então fazia sentido. João não devia tá ali, ele tinha que ir emobra. "é pai, meu lugar não é aqui", concordava João com Lalá, que dizia, "ele tem que ir embora". Chorou muito, porque ele gostava muito de João, e não queria se separar dele de novo, e gritou, "me devolvam meu filho!", que da sala, se escutou o grito. E então ele tava roubando doce de novo no fiteiro, correndo ao lado de João, mas dessa vez não entraram em casa, passaram direto. Continuaram correndo. Ele tinha que algo a dizer, mas não sabia o que era. João pedia um pedaço de doce. "Já começo a gostar desse doce. Tenho uma idéia.", diza João com a boca cheia de goiabada, "Eu posso ser seu irmão, ao invés de seu filho, e aí vó cuida de mim e lalá vai embora." E ele gostava da idéia, mas sabia que não tinha como deixar de ser pai e filho. Ele apagou o sorriso, e falou, "mas você vai deixar de ser meu filho.". E ficou com medo de que não fossem mais ser tão amigos como eram, que fosse acontecer alguma coisa, que o elo pai e filho se quebrasse. Falou então: "É melhor tu ser meu pai e eu teu filho, que faço birra e não vou embora", e João ficou pensativo. Era muita responsabilidade, e ele também era pequeno, não queria ter que mandar no proprio pai. Ficaram os dois matutando enquanto a goibada era comida por eles e pelas formigas. João então falou, "não tem como, eu vou ter que ir embora." Ele ficou triste, queria João ali. "E como você vai embora?", "Eu vou morrer", respondeu. Sentiu muito medo, e pensou, que João já tava morto, as formigas também tavam comendo ele e gritou muito forte.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Do caso Madeline à Declaração Universal dos Direitos dos Órgãos.
O primeiro caso relatado aconteceu em Manchester, Inglaterra, deu-se enquanto um caso de separação litigiosa na vara familiar, julgado pelo juiz William Kossick, ingles de decendência alemã. Tal caso foi analisado sem os apelos midiáticos pela primeira vez no I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow. Analistas não sabem se este caso foi um precursor, se os órgãos já não se revoltavam antes, mas sem dúvida abriu as portas judiciais para resultados favoráveis aos orgãos e não ao organismo. No entanto, alguns cientistas jurídicos afirmam que com o decorrer dos fatos e a maior frequencia de casos parecidos, talvez fossem melhor julgados numa nova instância a ser criada, a vara dos órgãos: aquela que julgaria os casos em que órgão processam pessoas e outros órgãos - ouvidos processam dedos, línguas processam dentes, barrigas processam seus donos - já que estes, como veremos a seguir, merecem tratamento jurídicos diferenciados.
Não é de se espantar que o primeiro caso tenha sido justamente uma barriga revoltada com sua condição de obesa, pede divórcio com o resto do corpo, processando assim Madeline Brosman. A barriga de Madeline, chamada assim nos autos do processo (até então, os órgãos não tinham o direito de ter nomes próprios), acusava Madeline, dentre outras coisas, de desleixo, preguiça crônica e exagerado apetite; caracteristicas as quais agravavam a situação, forçando-a a ficar debruçada constantemente sobre as genitália de Madeline, lugar oriundo de um terrível mal-cheiro. Ela exigia uma separação o quanto antes, assim como o pagamento de uma pensão e outros direitos conferidos a um casal divorciado. Em sua defesa, Madeline afirmou que não tinha vontade de emagrecer, e sentia muita raiva de mulheres magras, sinônimo de beleza até então. A sua barriga era a representação de si e de sua revolta à anorexia. Para ela, portanto, uma separação causaria danos irrparáveis à sua pessoa, sendo isso inaceitável. Quanto ao mal-cheiro dizia tratar-se de calúnias, e não exiatria em provar a qualquer duvidoso de que sua vulva exalava um odor bastante agradável.
Para que compreendamos o julgamento favorável à barriga de Madeline, é preciso ir além da relação de Madeline com sua barriga, ou mesmo ao apetite exagerado dela. Compreendamos duas outras histórias relevantes para o julgamento, no intuito de não termos uma interpretação leviana acerca dos fatos. A primeira, a tradição do divórcio na Inglaterra, lugar que tem sua história política marcada por reis e rainhas desquitados, algo que segundo alguns historiadores tornou a ilha do mar do Norte como o país com mais casais separados. Segundo, a história do juiz William Kossick, e a relevância que sua decedência alemã tomou ao julgar este caso. Apesar de ser inglês, desde sempre nutriu um certo apaixonamento pelo aquilo que vinha do continente, como a adesão ao pensamento racionalista, e gosto pelos contos do Barão de Munchaussen, que coloriram sua infância. Ao deparar-se com o caso de Madeline, lembrou-se do Rei da Lua, personagem dos contos do Barão, o qual tinha a cabeça separada do corpo, como uma alusão à separação entre alma e corpo cartesiana, o qual no pensamento do racionalista francês era algo completamente possível. Sendo assim, tal divórcio deveria ser tratado como a cabeça do Rei da Lua que desejava afastar-se todo o tempo de seu corpo, uma relação, assim como a de Madeline ocm sua barriga, marcada por muitos desentendimentos.
Temos ainda o advogado de Madeline, Pierce Barry, acostumado com processos de divórcio envolvendo abuso sexual, julgados na vara criminal, e não da família, passou a aconselha-la, com o decorrer do julgamneto, a aceitar o divórcio, uma vez que a barriga de Madeline poderia agravar a situação com um processo de abuso sexual. Obrigar a outra pessoa cheirar a genitália do outro, mesmo sem a intenção de, poderia ser enquadrado num crime de abuso sexual culposo.
Portanto, algo irrealizável até então, o juiz da sua sentença a favor da barriga. Suas palavras finais foram transcritas no seguitne trecho:
"Este é um processo que muitos, mesmo não estando na posição de juiz, julgaram-no absurdo por sua natureza inesperada ou incompreensível, e portanto apenas um resultado seria possível: favorável a Senhora Madeline Brosman. No entanto lhes digo que minha compreensão, distinta, autorizada por minha posição, afinal, foi a mim que caiu a decisão sobre tal julgamento, surge numa contra-corrente: julgo sentença favorável à Barriga de Madeline. Este processo irá não apenas acabar de uma vez por todas as discussões da divisão entre corpo em alma, se são inseparáveis ou não, como, assim como nos contos do Barão de Munchaussen, o qual travava uma luta não apenas contra a morte, senão também contra a lógica e a razão. Se tal processo é incompreensível, a razão nos é então nada mais que inútil para uma decisão. Tal como o Barão, não me utilizo da razão para julgar. Julguei com a minha desrazão, e posso já vizualizar as consequencias deste novo modo de pensar. Minha sentença separará os órgãos do organismo, maracará a derrocada da alma sobre o corpo, abrindo precedentes para tornar-lhes, os órgãos, seres de direito. Tal questão nos coloca numa posição até então jamais visitada: é o organismo responsável por seus órgãos? Julgo que um resultado favorável à Barriga de Madeleine só é possível se entendemos que Madeline negligenciou cuidado à sua barriga, e ainda a expos a situações de risco e degradação, havendo sistemáticas situações de assédio. À Madeline, portanto, condeno-a a uma sentença em regime fechado em prisão estadual de segurança mínima por abuso sexual culposo, por 2 anos, assim como a exigência de que durante o período de reclusão, mude seus mal-hábitos, e realize exercícios físicos. É da responsabilidade também de Madeleine o pagamento de uma pensão alimentícia de 50% de seu salário à sua Barriga, sob a ameaça de pena de reclusão, caso os pagamentos não sejam efetivados."
A mídia a princípio não acompanhou tanto o caso, mas o agravamento da situação e seu apelo sensacionalista, o qual sobretudo pelas declarações cada vez mais injuriosas que a barriga de Madeline realizava contra ela, virou um grande tema de discussão, sendo acompanhado com afinco por toda a população, ganhando apelo internacional. Tal repercussão só aumentou frente ao julgamento, quando as palavras finais do juiz foram divulgadas, havendo então cada vez mais processos do tipo: mais barrigas processando os maus-hábitos dos seus donos, que com o tempo passaram e serem chamados de organismo-portador ou termos mais radicais, organismo-privador; assim como organismos passaram a processsar suas barrigas, querendo também divórcio. Mas os problemas aumentaram quando outros órgãos passaram a processar os organismos. Casos de fígados processarem o organismo portador, acusando-os de bebedeira, e exigindo indenização multiplicaram-se pelo mundo. Logo então, órgãos passaram a processar órgãos. Os mais comuns: línguas processavam dentes; instestinos processavam pâncreas; coração processava o cérebro, e este exigia por sua vez, a volta do reconhecimento da representação da alma. A alma, por sua vez não era mais possível; o que outrora já havia sido um sujeito passou a ser muito mais compreendido como um condomínio hábitado por muitos, que nem sempre se entendiam.
A situação se agravou quando relatos doenças auto-imunes revelaram-se como atentados terroristas, ou corações que paravam a fim de justificarem sua importância frente ao funcionamento do organismo, quando não o cérebro que exigia esse reconhecimento e deixava de realizar suas funções propositalmente passaram a ocorrer. Tais casos inicialmente passaram a ser analisados nas varas criminais em alguns países; alguns configuraram homicídio doloso, com penas de reclusão no formal, ou habitar outro organismo-portador/privador de algum prisioneiro. Alguns desses países passaram a criar organismos-portadores/privadores para agruparem órgãos infratores chamados formalmente de organismos-prisionais; informalmente de Frankensteins enjaulados. Mas na maioria dos países, continuou-se a analisar casos que envolviam órgãos enquanto próprios da vara familiar.
A discussão em todos os países se deu exatamente nesse ponto, que com a multiplicação de um quadro de processos envolvendo órgãos e organismos-portadores/privadores, não havia uma vara própria para tais casos, deixando assim os órgãos numa certa "reconhecida informalidade" (Stromberg, 1987, p.325), dada a dificuldade de enquadre em qualquer uma das varas já existentes. Nesse sentido que 32 anos após o caso Madeleine, jurista do mundo todo se reuniram no I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow, onde foi proposto a criação de uma vara especial: a vara dos órgãos. Houve bastante divergências, pois algusn juristas alegavam que os órgãos não eram seres de direito, outros que não havia necessidade de uma criação de uma vara desse tipo, pois assim, estaríamos enquadrando todos os processos envolvendo órgãos aí, e lhes negaríamos o direito de julgamentos em outras varas.
A Barriga de Madeleine, agora com um nome próprio, Lorenzo Guttemberg, compareceu ao congresso, desquitada de Madeleine, divulgando seu livro, A luta pelo direito dos órgaos, e em ação política. Foi aí também, em Glasgow, que foi reconhecida a importância para a luta dos órgãos por seus direitos e o pioneirismo do caso Madeleine. Seu discurso foi entremeado por vaias e apalusos calorosos, de organismos e órgãos. Línguas gritavam elogios, enquanto outras chigavam-na veementemente, acusando-a de anarquista e de ataque a moral e os bons costumes.
O I Congresso Internacional de Ciências Jurídicas em Glasgow, não repercutiu como o esperado pelos órgãos, havendo considerações quanto ao caráter planfetário que ganhou o congresso. No entanto, observa-se aí a primeira tentaiva de um plano internacional para a situação legal dos órgãos afim de tirá-los da informalidade legal. Após alguns anos, foi a Itália que primeiro transformou seu sistema judiciário para a criação dessa vara. Os demais países foram transformando-se aos poucos, alguns ainda não a incorporaram. Outros que o incorporaram, já criaram tal vara bastante diferente do projeto inicial proposto em Glasgow.
Outras tentativas aconteceram, mas nenhuma mais importante que a de Rotterdã. Apenas cerca de cinquenta anos após o caso Madeline que em Roterdã foi realizada a primeira Declaração Universal dos Direitos dos Òrgãos. Dentre os principais tópicos, temos:
I. Todo órgão é igual em seus direitos, sendo todos eles seres de direito;
II. Todo órgão é livre para participar ou não de um organismo-portador;
III. Todo órgão tem direito a um nome próprio que o diferencie de outro órgão, se assim o desejar;
IV. Todo órgão tem direito de exercer suas atividades livremente, de acordo ou não com o organismo-portador;
V. Todo órgão tem o direito de habitar um organismo, se assim for de acordo com a comunidade de órgãos que o habitam;
Estes cinco pontos são os mais fundamentais. Todo eles foram desenvolvidos e discutidos em uma luta política formalmente encontrada em cinquenta anos desde o caso Madeleine. A declaração ainda é muito polêmica, uma vez que há organismos-portadores/privadores não querem reconhecê-la, assim como grupos de órgãos, chamados informalmente de anarquistas, acusam-na de burocratizar os órgãos, negando sua essência de órgãos, tornando-os nada mais que outros organismos menores.
Por fim, é nesta situação que nos encontramos hoje, pendendo ora para a reconstituição do organismo portador como o único ser de direito, ora para destruição do pensar racional e o espedaçamento do organismo.
sábado, 21 de novembro de 2009
Pedro abençoado
A chuva começou de madrugada. Pedro estava dormindo, mas ouviu a chuva e sonhou que tomava banho. Acordou com sede em mais um domingo.
Levantou-se, caminhou até a janela, e escutou a voz forte que batia no telhado e escorria para o chão. Definitivamente, não foi este barulho que o acordou, senão a sede. Talvez fosse hoje o dia?, se perguntou. Foi a cozinha e bebeu um copo d´água. Já era dia, ainda que cedo, mas as nuvens insistiam em barrar a luz, e deixar uma escuridão cinza marcar o céu.
Pedro, que morava no bairro do São José, não tinha ainda programa para aquele domingo. Pensou em ir ao culto, ou assistir a chuva, como fazia religiosamente em dias nublados. Foi ao parque treze de maio, na chuva. Passeou com uma capa azul, meio transparente, que deixava atravessavar a cor da camisa branca que usava embaixo. Tinha ainda um guarda chuva safado que quebrou com o primeiro sinal de vento mais forte um pouco. A capa foi suficiente; molhava um pouco a testa, e atrapalhava um pouco a vista, embaçando os óculos, mas protegia a maior parte do corpo. Tudo o que precisava era dos seus ouvidos.
A praça vazia, em época de chuva, afastava inclusive os mendigos que ali habitavam. Se mudavam temporariamente para as marquizes das ruas vizinhas. 'VocÊ tem que ter uma saúde de ferro para ir, nessa chuva, caminhar no treze de maio', imaginava o que iriam lhe dizer. Em verdade costumava ter, ficou doente a última vez na infância, curado por uma benção. Não tinha medo de gripes, sabia que Deus tinha um plano para ele, e esperava o seu chamado.
Talvez uma chuva forte fosse o prenúncio de uma nova ordem, de uma nova manifestação de ira do Senhor. Pedro gostava quando chuvia. Lembrava-se de Noé. Pensava que agora iria ouvir o seu chamado, que conseguiria uma counicação direta com Deus, "seria agora que me enviaria um anjo, que me chamaria para atender o seu chamado? Senhor, estou pronto".
O parque vazio na chuva era um bom lugar para decifrar a voz de Deus. Sabia que o barulho da chuva que cada som que as gotas da chuva faziam quando caiam continham uma mensagem a ser decifrada. Pedro fechava os olhos e escutava uma sinfonia das águas escorrendo do céu para os telhados, plantas, pessoas, carros, e toda a sujeira que circulava na cidade. O cheiro forte que sobe é a própria angústia que Deus sente com os recifenses. Precisamos de um lugar limpo e todos os que mais precisam do banho sagrado estão protegidos. Fechava os olhos e sentia que podia ouvir num grande ruído toda a natureza, sons emitidos pelos siris mergulhados na lama, às baratas nas galerias, aos homens comentando o último jogo do Santa.
Pedro sabe o que Deus quer dele. Sabia que aquela chuva queria dizer-lhe algo. Ele podia sentir, mas não traduzir em palavras. Sempre soube, desde aquela benção que o curou de uma gripe forte e o aproximou definitivamente à direita do Pai. Sabia que estava ali para ser instrumento, e a chuva seria o canal de comunicação, traduzia toda a natureza, ligava todas as águas, ali ele tinha o mar, os rios, os canais, os esgotos evaporados e purificados no pleno contato com o Divino.
Pedro aguardava, quando vou entender? quando a mensagem me será revelada? Sabia que não devia ficar ansioso. Quando a hora chegasse, ele iria saber.
As águas continuavam a cair do céu. A chuva parecia ter engrossado. O que isto poderia significar? Não sabia. Pedro tinha vontade de chorar. "Por que este martírio Senhor, por que me forças a andar às cegas?". Sentia raiva, revolta. Seria ele espelho da vontade divina? Sua raiva era a raiva do Senhor? Estaria ele ligado por aquela água de modo purificado para sempre à Deus, sendo ele agora órgão das atividades divinas.
Olha para frente, vê as plantas. As árvores antigas que sempre estiveram naquele parque. Pedro se sentia igual a elas. Sou filho de Deus, produto da natureza, pensava solitariamente. Sentia-se parte do ambiente. Aquela espera, ainda que demorada, ainda que martirizante, fazia-o sentir-se como aquelas plantas, pertencentes ao treze de maio, e isso trazia-lhe uma alegria, uma sensação única de pertencimento. Pensava às vezes que não queria decifrar nada, queria apenas viver embaixo da chuva no treze de maio. Quando a chuva acabava, em outras vezes, sentia a obrigação de sair dali, além de se sentir incapaz. Incapaz por não poder continuar ali junto com a chuva.
Às vezes queria ser Deus, e fazer chover sem parar. Gostaria de matar todos afogados, as plantas, as pessoas, as crianças. Derramaria uma chuva ácida que derreteria o bronze das estátuas do parque, o ferro dos barcos e a casca dos siris. Às vezes Pedro tinha muita raiva dos mendigos que se protegiam da chuva e mijavam no chão. Tinha raiva dos lojistas que não acolhiam os mendigos. Tinha raiva dos carros que passavm e atropelavam os mendigos. Tinha raiva da chuva que todos odiavam.
Pedro às vezes se sentia muito confuso. Queria esperar, queria ter paciência, queria que a chuva o cobrisse até que morresse sem ar. Queria que a chuva só matasse ele, que era surdo e não entedia Deus. Queria criar raízes embaixo da terra, e comer o barro de onde veio. Pedro não aguentava mais os dias de sol, não aguentava mais o fedor do bairro de São José, não aguentava mais o banho que a chuva lhe dava. Ele não queria mais esperar. Pedro queria nunca ter sido abençoado.
Pedro não escutou voz nenhuma. A chuva engrossou e seus óculos estavam completamente embaçados.
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